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Nossa Senhora Divina Pastora
Publicado por eribelton em Artigos, Nossa senhora Divina Pastora, Noticias em março 24, 2011
Nossa Senhora Divina Pastora (também invocada sob os nomes de Divina Pastora das Almas, Mãe Divina Pastora ou ainda Mãe do Bom Pastor) é um dos muitos títulos pelos quais a Igreja Católica venera a Bem-aventurada Virgem Maria, sendo, sob essa invocação, particularmente cultuada em Portugal, Espanha e América Latina.
Imagem da Divina Pastora venerada no Convento dos Capuchinhos de El Pardo (Madrid)
As origens da devoção a Nossa Senhora Divina Pastora são imprecisas, mas as primeiras manifestações surgem no século XVIII. Existem referências à Virgem Maria vestida de pastora na vida de São João de Deus, de São Pedro de Alcântara, da Venerável Maria de Jesus de Ágreda e de Santa Maria das Cinco Chagas.
Inicialmente chamada de “Virgen Zagala” (que significa: “a pastora que cuida do seu rebanho”), esta invocação simboliza uma mãe que cuida de seus filhos. No entanto, a invocação mariana de Nossa Senhora Divina Pastora começou a tornar-se mais conhecida a partir da cidade de Sevilha, em Espanha. De acordo com a tradição, a Virgem Maria terá aí aparecido no dia 8 de Setembro de 1703 – data na qual se comemora a festa da Natividade de Nossa Senhora. Ela ter-se-á revelado sentada numa rocha, vestida como uma pastora e num local onde pastavam algumas ovelhas. Desde logo, um conhecido frade capuchinho, Frei Isidoro, tornou-se num grande divulgador desta devoção (tendo mesmo solicitado a um pintor da Escola Pictórica de Sevilha, Alonso Miguel de Tovar, que fizesse a primeira representação da Virgem Maria sobre esta invocação).
Divina Pastora de Málaga, esculpida por José Montes de Oca no século XVIII.
Posteriormente, o artista Francisco Ruiz Gijón esculpiu a primeira imagem em tamanho natural da Divina Pastora. Essa imagem foi levada na sua primeira procissão, em Outubro de 1705, com grande solenidade, até à Igreja Paroquial de Santa Marina e na qual foi desde logo constituída a “Irmandade Primitiva do Rebanho de Maria” (a primeira Irmandade dedicada a Nossa Senhora Divina Pastora). As autoridades eclesiásticas acabaram por aprovar o culto em 1709, tendo também autorizado a criação das várias Irmandades da Divina Pastora (e a uma das quais o próprio Rei de Espanha se associou).
Propagação
A partir de 1705 começou a propagar-se por todo o território do Reino de Espanha e da América Latina esta invocação mariana. Nesse aspecto, teve um importante papel o Beato Digo José de Cádiz.
Tendo em consideração a enorme propagação do culto a Nossa Senhora Divina Pastora no sul de Espanha, além da cidade de Sevilha, também Cantillana, Málaga, Santa Marina e Cádiz se tornaram importantes lugares de veneração à Santíssima Virgem Maria sob esta invocação.
Na América Latina, o principal santuário da Divina Pastora é o da Ilha da Trindade, nas Antilhas.
Este culto chegou também à Venezuela, através dos Frades Menores Capuchinhos, por volta do ano 1778. Na Venezuela, o culto a Nossa Senhora Divina Pastora atingiu tal proporção que até se utiliza a expressão “Ó Divina Pastora, a Venezuela é Tua!”, tendo-se tornado na padroeira do Estado de Lara[4]. Já no Brasil até existe, no estado de Sergipe, uma cidade chamada Divina Pastora, elevada a vila em 1836, e cuja Igreja Matriz é dedicada a Nossa Senhora sobre esta invocação. Por curiosidade, o famoso pintor Cândido Portinari executou um belo fresco da Divina Pastora para a casa de campo do Barão de Saavedra em Correias, município de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro.
Oração à Nossa Senhora Divina Pastora
“Oh Divina Pastora, levai-me a Jesus , o Bom Pastor, para que nada me falte. Fazei-me repousar em verdes pastagens. Conduzi-me junto às águas refrescantes. Restaurai as forças de minha alma. Levai-me pelos caminhos retos, por amor ao nome de Jesus. Ainda que atravesse o vale escuro, que eu nada tema, pois estais comigo. Que o Vosso cajado seja meu amparo. Amém !”
Fonte: Títulos Marianos.
Maria, o lindo sonho de Deus
Publicado por eribelton em Artigos, Ave-Maria, O Cântico de Maria, Pregações em março 6, 2011
- Neste Fórum temos falado sobre o fogo de Deus. Hoje eu gostaria de falar sobre como este fogo pode ser vivido dentro de nós, na nossa humanidade, na nossa vida, como um homem e uma mulher inteiros, na nossa história, no nosso espírito, no nosso amar, no nosso agir, no nosso ser. Porque esse fogo, para se espalhar sobre a terra, precisa primeiro se espalhar em mim. Para que esse fogo possa queimar a Terra, precisa primeiro queimar em mim, arder em mim, purificar aquilo que sou.
Falaremos disso através da mediação da pessoa que mais inteiramente correspondeu ao desejo de Deus de trazer o fogo sobre a Terra: Na verdade, ninguém trouxe o fogo sobre a Terra como Nossa Senhora!
O livro do Gênesis fala que a Terra era sem forma e vazia. E a primeira coisa que Deus criou foi a luz. Fogo e luz, na Bíblia, estão muito relacionados. E a cada nova criação, se completava um dia, e a cada nova aurora Ele recomeçava a criação nesse hino litúrgico que é o capítulo 1 do Gênesis.
A última criação de Deus foi o homem e a mulher. Ele entregou o homem à mulher e a mulher ao homem para que vivessem um relacionamento de reciprocidade, para que se amassem e se doassem um ao outro como um auxílio de felicidade. O homem ama a mulher, se entrega por ela, se dá para que ela seja feliz e a mulher ama o homem, se entrega a ele e se doa para o homem ser feliz. Dessa forma eles estariam reproduzindo na Terra a mesma doação que a Trindade tem em si. O homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus para este tipo de amor, que tem o seu parâmetro na Trindade. É assim que a Trindade ama, é assim que devemos nos amar.
Quantos tipos de amor existem no mundo? Só um. Só existe o amor de Deus. Só o amor de Deus é amor! E esse amor de Deus se expressa de formas diferentes: no casamento, no celibato, entre irmãos espirituais de sangue, no sacerdócio, entre amigos. É o amor de Deus que se expressa de modos diferentes, mas é sempre o mesmo amor.
E o homem era muito feliz! Tudo era dia, no sentido de que no coração humano brilhava o fogo do amor. Quanto mais o homem amava a mulher, mais este fogo brilhava nele. Quanto mais a mulher amava o homem, mais este fogo brilhava nela e mais os dois viviam em intimidade com Deus. A intimidade com Deus reside no amar, no orar para amar, no orar para ser amor, no orar para amar o irmão.
Uma promessa
Até que sobre a terra o aconteceu o pecado de origem, o primeiro pecado. E se estabeleceu no coração do homem a treva mais densa que pode existir. Mas Deus, na sua misericórdia, fez uma promessa: “Colocarei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela”. Ou seja, Deus prometeu que criaria uma mulher que essa mulher seria novamente condutora da luz, seria a aurora, seria aquela que traria a luz, aquela que anunciaria e que traria a luz. E a partir desse momento, Nossa Senhora passou a existir como profecia.
Muitos e muitos séculos antes dela nascer, Nossa Senhora foi anunciada pelo próprio Deus e se tornou uma profecia. O mundo será salvo e a salvação virá através de uma mulher. Diz o Papa João Paulo II, na carta Mulheris Dignitatem, que é aí que reside a dignidade da mulher. A dignidade mais alta da mulher reside no fato de ela ter sido aquela por quem, ou por cuja raça, ou por cuja irmã, que é Maria, veio à Terra o próprio Deus. Daí, Nossa Senhora começa a ser essa aurora, não tão bem entendida pelos que viviam naquela época, porém sempre esperada, sempre anunciada.
“Uma virgem conceberá e dará à luz um filho e esse filho será o Emanuel, o Deus conosco”. Os que viviam naquela época não entendiam, mas sabiam que o messias viria através de uma mulher. Nossa Senhora foi profetizada como o sonho lindo de Deus.
Na promessa divina Nossa Senhora vai avançando como a aurora, brilhando como a lua, precedendo o sol – isso contagia a todos nós! Precedemos a Jesus, vamos como anunciadores e profetas, com a nossa vida, sendo aurora para Jesus.
Nossa Senhora e o fogo
E nas várias ocasiões em que a Palavra de Deus usa o fogo podemos já ver Maria. Como não veríamos Maria grávida na imagem da sarça ardente, cheia de fogo, que queima sem consumir? Como não poderíamos ver em Maria grávida, o brilho deste Deus que é o “Eu Sou”, o “Deus Iahweh”? Quando Jesus foi encarnado, no seio de Maria, a chama viva do amor de Deus passou a viver no seio dela. E Nossa Senhora, com toda a certeza, brilhava, queimava de amor.
Como não veríamos Nossa Senhora na coluna de fogo que guiava o povo de Israel nas noites no deserto? Essa que é aurora do novo sol, é coluna de fogo que vai conduzindo, no deserto, o povo de Deus. na escuridão do deserto, no dia eles viam a nuvem, à noite viam a coluna de fogo. Como posso olhar para Maria e não ver dentro dela o incêndio de amor causado pela presença de Deus na sua alma, no seu corpo, na sua feminilidade, no seu serviço e nos seus atos de amor? De maneira especial, como não ver a coluna de fogo em Maria, de pé, aos pés da cruz? É a coluna que indica: “Eis o salvador, eis o caminho”. Do mesmo modo que a coluna de fogo foi guiando o povo através do deserto, nas noites escuras e muito frias do deserto, onde a coluna de fogo andava, também andava o povo; também Maria de pé, aos pés de Jesus que agoniza, Maria se estica e se torna então a consoladora, o amor que se dá, o amor que pensa mais na dor do outro do que na sua dor.
Também temos de ver o mistério de Nossa Senhora no carro de fogo de Ezequiel. Aquele carro que Ezequiel nunca conseguiu descrever de maneira física, mas como um mistério de amor, de entrega e de salvação.
Como nós não veríamos Nossa Senhora como a mulher louvor, na fornalha ardente? Essa fornalha que arde sem queimar e enche de dança os três jovens e o anjo. Quando olhamos para o Magnificat, com o coração, com o corpo, com a alma em chamas de amor e de gratidão, Nossa Senhora também dança, glorifica, canta os louvores de Deus, ardendo sem se queimar.
Podemos ainda ver Nossa Senhora no fogo que queima o sacrifício de Elias e que destrói a idolatria. Sabemos que pelo amor de união e pelo poder de intercessão que Deus deu a Nossa Senhora ela acaba a idolatria.
Como não veríamos Nossa Senhora como a mulher oração diante do fogo que queimava no Templo, diante do santo dos santos, o fogo perpétuo?
Nossa Senhora é também a mulher acolhida no fogo do lar. Nossa Senhora é a mulher oração, é a mulher aurora, é a mulher louvor, é a mulher com poder de intercessão, a mulher aos pés da cruz e é também a mulher acolhimento, aquela que acolhe no fogo do lar. No lar de Nazaré sempre havia fogo, porque sempre chegava alguém – um parente, um amigo – então, sempre havia pão quente. Era, portanto, uma casa quente, uma casa pronta para servir. Como o lar de Abraão e Sara, quando que fizeram pão para os anjos; como o de Marta e Maria, que acolhiam Jesus com dois fogos diferentes, mas ambos muito eficazes: Marta com o fogo do fogão e Maria com o fogo do coração.
Há uma passagem de Baruc 3 que diz assim: “Brilham as estrelas no céu, tu as olha e as chama: ‘Senhor!’ e elas pronta e alegremente dizem: ‘Eis-me aqui’”. Como vocês sabem, a estrela também é fogo e é impossível não vermos Maria nas estrelas do céu, às quais o Senhor sustenta e para as quais o Senhor olha e chama, e elas, felizes, refulgem para o seu criador dizendo, cada uma: “Eis-me aqui”. É Nossa Senhora a mulher adoração, que brilha para o seu Criador sem esperar recompensa; a mulher gratuidade, que se dá sem ficar pedindo, mas brilhando, amando, dando…
Como não veríamos Nossa Senhora no êxtase da mulher esposa do Espírito quando são derramadas as línguas de fogo, quando o fogo que brilhava dentro dela brilhou também fora?
Como não veríamos nos olhos de Nossa Senhora Assunta ao céu o brilho do Cordeiro que ilumina o céu, que não precisa mais de luz, porque o Cordeiro é a própria luz?
Como poderíamos deixar de vê-la em cada homem e em cada mulher que se enche de luz quando entra em contato com Cristo?
Como não ver, finalmente, Nossa Senhora na dignidade de cada mulher? Aqui cito João Paulo II: “Cada mulher, cuja extraordinária dignidade é manifestada na plenitude dos tempos, em Maria, elevada de forma sobrenatural à união com Deus, pela união entre mãe e filho que só a mulher tem como viver”.
Nossa Senhora é feliz por ser mulher
Às vezes somos acostumados a ver nossa Senhora como uma pessoa que não é gente, mas a graça a transforma na realização do sonho de Deus para você e para mim. E o que Deus quer é que a sua glória brilhe dentro de você, dentro de mim, para que o mundo pegue fogo.
Quando Moisés falava com Deus face a face tinha de esconder o rosto, porque se enchia de brilho. Nossa Senhora fala com Deus dentro, de coração para coração, e na face dela brilha a própria face de Deus.
Quais são as imagens de Nossa Senhora que vemos? Fátima, Lourdes, Rainha da Paz, Loreto, Guadalupe… Tem algo que não sei se vocês acham estranho, mas eu acho. Vemos as imagens de Nossa Senhora sozinha, como Fátima, Nossa Senhora das Graças, Guadalupe, Lourdes… vemos as imagens de Nossa Senhora com Jesus no colo e depois pula para a imagem de Nossa Senhora com Jesus morto, nos braços. Se eu fosse artista, queria pintar Nossa Senhora assim no chão, dizendo: “Ei, nenê, vem cá com a mamãe”; queria pintá-la levantando as perninhas de Jesus e mudando a fralda dele; embalando Jesus num balanço ou levantando-o assim e dizendo: “Coisa linda da mãezinha!” e a babinha de Jesus caindo no rosto dela, senão na boca, porque parece que menino acerta; queria pintar Nossa Senhora dizendo: “Jesus, tá na hora de comer!” ou “Meu filho, você já escovou os dentes?” ou “Jesus, não dá certo pentear o cabelo para esse lado, você tem um redemoinho bem aqui”; queria pintar Nossa Senhora com Jesus adolescente, não só lá no Templo, mas travando com Jesus um relacionamento de amizade. Essa mãe que dizia a São José: “José, pelo amor de Deus, espera aí, calma, olha que o menino é filho de Deus… José, larga esse menino devagar…”. Essa Nossa Senhora humana, mãe.
Essa Nossa Senhora que conversa com Jesus sobre as coisas de Deus, que conhece Jesus em profundidade e tem com Ele um relacionamento profundamente humano. Tudo o que é profundamente humano é profundamente divino e tudo que é profundamente divino, exceto Deus, em si próprio é profundamente humano.
Precisamos entender que Nossa Senhora é feliz por ser mulher, por ser gente e é capaz de entender essa dignidade da qual o Papa fala.
Nossa Senhora serve porque ama
Um dia perguntaram a um grande mestre: “Mestre, quando é que o amor é verdadeiro?” O mestre respondeu: “Quando ele é fiel”. E perguntaram: “E quando é que o amor é profundo?” O mestre respondeu: “Quando ele sofre”. E perguntaram: “E que língua fala o amor?” O mestre respondeu: “O amor não fala, o amor ama”. Nossa Senhora foi serviço porque amou.
Em geral, quando se vai falar do serviço de Nossa Senhora, colocam-na na casa de Santa Isabel. Será que não podemos ver Nossa Senhora no serviço do ser e não no serviço do fazer somente? Não podemos ver Nossa Senhora que ao ser mulher, ao ser mãe de Deus, amou e amando serviu a Jesus e a José e aos irmãos e aos vizinhos? É preciso ver que o serviço vai além do fazer. O amor de Deus em nós gera amor e atos de amor em nós.
O grande serviço de Nossa Senhora era amar. Nossa Senhora expressa o fogo de amor que queima dentro dela através do serviço, através da acolhida. “Onde reina o amor, ali se encontram olhos que sabem ver”.
Vamos todos aprender a ver com estes óculos, com o olho do coração. O que será acolher? J.S. Helliot escreveu: “Ah! O indizível conforto de nos sentirmos seguros com uma pessoa. Cresce a síndrome do pânico, cresce a desconfiança, cresce a insegurança, cresce a falta de ternura, a falta de acolhida. O conforto de não termos de pesar os nossos pensamentos, o conforto de não termos que medir as nossas palavras mas de podermos derramar as nossas palavras tais como são. O joio e o trigo misturados, sabendo que mão fiel os irá apanhar e os irá peneirar. Conservar o que merece ser conservado e depois, com o sopro da bondade, soprar fora o resto”.
Você não gosta quando você pode chegar para uma pessoa e saber que ela não vai jogá-lo fora? Você não gosta quando pode conversar com uma pessoa sem ter de medir os pensamentos nem as palavras, pois sabe que ela vai acolhê-lo com o seu joio e com o seu trigo? Saber que ela vai acolhê-lo como você é e depois peneirar o joio e o trigo e com o sopro da bondade soprar fora o joio e se alegrar pelo trigo que ficou? A acolhida.
Temos vivido num mundo de desconfiança, de defesas. Não era assim. E não é assim a acolhida de Nossa Senhora. Nossa Senhora Jesus jamais exigiram que alguém mudasse para acolhê-los. Nossa Senhora, como Jesus, nos acolhem como somos, mas esquecemos essa ternura. Esquecemos Nossa Senhora, esquecemos que queremos ser acolhidos e não amamos os outros como gostaríamos de ser amados.
Nossa Senhora ensina a acolher
“Meu único desejo, homem, é ser o teu parente. Sejas tu negro ou acrobata, repouses ainda nas profundezas da guarda materna, vibre no pátio o teu canto de menina e dirija as tuas jangadas ao sopro do crepúsculo… conheço bem a angústia da harpista solitária, da tímida mulher, no seio de uma família estranha. Conheço a solidão dos que envelhecem, mas homem, eu quero só ser teu companheiro. Eu te pertenço. Como a qualquer outro homem, eu te pertenço. Sem preconceito, sem desconfiança, sem medo. Eu te pertenço, como a qualquer outro homem, como a qualquer outra mulher, eu te pertenço. Suplico-te, não te recuses! Se isso pudesse acontecer meu irmão, ah! Se pudesse acontecer, que nós finalmente caíssemos nos braços um do outro”.
Temos esquecido o acolhimento, temos esquecido a ternura. Temos feito dos nossos grupos de oração e das nossas comunidades, verdadeiras empresas que se levam como negócios de evangelização e se esquecem da ternura, se esquecem do olhar de ternura. Nem nos trocamos mais olhares de ternura. E Nossa Senhora pode vir em nosso socorro.
As nossas famílias, as levamos como um trem que passa rápido e que tem de parar em todas as estações, e nos esquecemos de olhar o outro com ternura, de acolhê-lo, de ver o outro com os olhos do coração. Nossa Senhora vive este fogo de amor que queima no coração dela como serviço, acolhida e agora Nossa Senhora vive a força deste amor que ama nela, que a ama e a quem ela ama.
Nossa Senhora vive esse fogo na força do humilde amor. No livro “Os irmãos caramasol”, de Dostoievsk, um monge russo diz as seguintes palavras: “Irmãos, não temais o pecado dos homens, amai os homens mesmo no seu pecado”. Não fique exigindo que as pessoas mudem ou sejam diferentes para você amar.
Se só existe um amor, Nossa Senhora amou com esse um amor que é o amor de Deus. E o amor de Deus ama o homem pecador. E o amor de Nossa Senhora é esse fogo do amor de Deus que queima nela ama o homem pecador.
“Amai os homens mesmo em seu pecado, porque esta imagem do amor de Deus é também o cume do amor de Deus sobre toda a Terra. Amai toda a criação divina em seu conjunto e em cada grão de areia. Amai toda a neve e todo o raio de sol. Os animais, as plantas, todas as coisas. Amai particularmente as crianças, porque são como anjos, não têm pecado e existem para nos ensinar a ternura, para purificar os nossos corações e são para nós como uma profecia. Às vezes te vêm alguns pensamentos, especialmente quando tu te vês diante do pecado do mundo. Tu ficas perplexo e te perguntas: ‘eu devo reagir com a força ou devo escolher o humilde amor?’, e eu te digo: decida-te sempre pelo humilde amor, e diga sempre: ‘eu recorrerei ao humilde amor’. Se tomares esta decisão de uma vez por todas, poderás elevar o mundo inteiro. O amor humilde, o humilde amor é uma força formidável, a maior de todas, incomparável a qualquer outra força.”
Nossa Senhora expressou este fogo de amor que arde no coração dela, esse fervor que Deus pediu hoje, esse fervor que Deus pediu hoje não é o fervor de orar forte, que é muito bom, mas este fervor que só existe e só é autêntico quando vem do amor, do amor concreto, do amor em ato, do amor sem preconceito, do amor sem medo.
Maria Emmir O. Nogueira
Co-Fundadora e Formadora Geral da Comunidade Shalom
Pregação ministrada no Fórum Carismático Shalom em novembro de 2002 – mantido o tom coloquial
Maria, estrela que aponta para a verdadeira felicidade
«sinal de esperança e consolo» (Concílio Vaticano II, constituiçãoLumen gentium, 68). Para chegar a Jesus, luz verdadeira, sol que dissipou todas as trevas da história, precisamos ter perto de nós pessoas que sejam um reflexo da luz de Cristo e que dessa forma iluminem o caminho que devemos percorrer. E que pessoa mais luminosa que Maria? Quem melhor que ela pode ser para nós a estrela da esperança, a aurora que anunciou o dia da salvação? (cf. encíclica Spe Salvi, 49). Por este motivo, a liturgia nos convida a celebrar hoje, ao aproximar-se o Natal, a festa solene da Imaculada Conceição de Maria: o mistério da graça de Deus envolveu, desde o primeiro instante de sua existência, a criatura destinada a converter-se na Mãe do redentor, preservando-a do contágio do pecado original. Ao contemplá-la, reconhecemos a altura e a beleza do projeto de Deus para cada homem: chegar a ser santos e imaculados no amor (cf. Ef 1, 4), à imagem do nosso Criador.
Que grande dom é ter Maria Imaculada como mãe! Uma mãe resplandecente de beleza, transparente ao amor de Deus. Penso nos jovens de hoje, que cresceram em um ambiente saturado de mensagens que propõem falsos modelos de felicidade. Estes garotos e garotas correm o risco de perder a esperança, pois freqüentemente parecem órfãos do verdadeiro amor, que confere significado e alegria à vida. Este foi um tema muito importante para meu querido predecessor João Paulo II, que tantas vezes propôs Maria à juventude do nosso tempo, como «Mãe do belo amor».
Muitas experiências nos mostram lamentavelmente que os adolescentes, os jovens e até as crianças são vítimas fáceis da corrupção do amor, enganados por adultos sem escrúpulos que, mentindo para si mesmos e para eles, atraem-nos aos becos sem saída do consumismo: inclusive as realidades mais sagradas, como o corpo humano, templo de Deus do amor e da vida, tornam-se dessa forma objetos de consumo. E isso cada vez mais rápido, já desde a pré-adolescência. Que tristeza é ver os meninos e meninas perderem a maravilha, o encanto dos sentimentos mais belos, o valor do respeito ao corpo, manifestações da pessoa e do seu insondável mistério!
Maria, a Imaculada, nos recorda tudo isso; nós a contemplamos em toda a sua beleza e santidade. Na cruz, Jesus a confiou a João e a todos os discípulos (cf. Jo 19, 27), e desde então ela se converteu para toda a humanidade em Mãe, Mãe da esperança. A ela dirigimos com fé a nossa oração, enquanto visitamos espiritualmente Lourdes, onde precisamente neste dia começa um ano jubilar especial, por ocasião do 150º aniversário das sus aparições na gruta de Massabielle. Maria Imaculada, «estrela do mar, brilhai sobre nós e guiai-nos em nosso caminho» (encíclicaSpe Salvi, 50).
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Papa Bento XVI
Pronunciamento no dia de Nossa Senhora da Imaculada Conceição na Praça de São Pedro
Nossa Senhora Rainha dos Corações
Publicado por eribelton em A Grande Mãe de Deus, Artigos em agosto 21, 2010

O grande missionário contra-revolucionário, mariólogo e fundador de congregação religiosa, São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716), em sua inspirada obra “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, afirma:
“Maria é Rainha do Céu e da Terra, pela graça, como Jesus é o Rei por natureza e conquista.
“Ora, como o reino de Jesus Cristo compreende principalmente o coração ou o interior do homem, conforme a palavra “o reino de Deus está no meio de vós” (Lc. 17,21), o reino da Santíssima Virgem está principalmente no interior do homem, isto é, em sua alma, e é principalmente nas almas que Ela é mais glorificada, com seu Filho, do que em todas as criaturas visíveis, e podemos chamá-la com os santos a Rainha dos corações”.
A palavra “coração”, nesse caso, significa a alma e, mais propriamente, a mentalidade do homem, isto é, a maneira de ser, pensar e agir que o caracterizam.
Como a opinião pública de um país é expressão da mentalidade dos seus habitantes, Nossa Senhora Rainha dos Corações pode ser entendida também como Soberana da opinião pública.
Colocar todas as obras sob a égide de Nossa Senhora
Na década de 50, comentando essa obra de São Luís Grignion em reuniões para o Grupo de “Catolicismo” — que em 1960 deu origem à TFP –, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira asseverou:
“Há uma verdade que, a bem dizer, é experimental dentro da Santa Igreja: quando uma associação religiosa vai mal, ou o andamento de uma iniciativa de apostolado está difícil, quando qualquer empreendimento santo não está despertando o interesse desejado nem criando raízes no povo, o meio que se tem para resolver as dificuldades, o caminho a seguir para tudo resolver, é colocar essas obras sob a égide de Nossa Senhora.
“O mais insigne desses exemplos é a Cruzada pregada contra os albigenses. Como sabemos, esses hereges viviam na região de Albi, no sul da França, e eram tão pertinazes que não havia meio de os dominar.
“Nossa Senhora revelou então a São Domingos de Gusmão uma devoção a Ela, mediante a qual os hereges seriam subjugados. E, de fato, depois de difundida a recitação do Santo Rosário, a heresia dos albigenses, que era tremenda e estava profundamente radicada no solo francês, começou a ser debelada.
Uma das mais belas invocações a Nossa Senhora
“As Congregações Marianas tiveram um florescimento enorme no Brasil, devido precisamente ao culto a Nossa Senhora. Toda a vida católica no Brasil foi florescentíssima no tempo em que não havia esse maldito combate à devoção a Nossa Senhora. É só minguar de qualquer forma a devoção a Ela, que imediatamente todas as coisas começam a decair.
“Onde há devoção a Maria, tudo floresce; extinta essa devoção, tudo míngua; restaurada novamente, tudo volta a florescer.
“A razão disso é profunda e teológica. São Luís Grignion mostra que, se Nossa Senhora tem uma grande influência na geração dos membros do Corpo Místico, Ela implicitamente tem um grande poder sobre as almas, porque Ela não poderia obter a geração do Corpo Místico, se não tivesse esse poder.
“A devoção a Maria Santíssima age sobre as almas, e o faz de forma imensamente poderosa; por isso, as conversões mais profundas, as mudanças de espírito mais surpreendentes, as graças espirituais mais assinaladas são produzidas por essa devoção.
“Em conseqüência, Nossa Senhora deve ser chamada a Rainha dos Corações. É uma das mais belas invocações a Ela dirigidas”.
Coerentemente com esses belíssimos comentários, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, antes e depois de reuniões para sócios e cooperadores da TFP, rezava a invocação “Regina Cordium, ora pro nobis” — Rainha dos Corações, rogai por nós.
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Fonte de Referência:
São Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, Vozes, 6ª ed., 1961.
Faça-se em mim segundo tua palavra!
Publicado por eribelton em A Grande Mãe de Deus, Artigos em julho 30, 2010
Frei Raniero Cantalamessa, OFM.
Pregador da Casa Pontifícia
Obedecer a Deus é algo que se dá muito com frequência. Quanto mais se obedece, mais se multiplicam as ordens de Deus, porque Ele sabe que este é o dom mais belo que pode dar, o que concedeu a seu Filho predileto, Jesus.
Quando Deus encontra uma alma decidida a obedecer, então toma sua vida nas mãos, como se toma o timão de uma embarcação, ou como se tomam as rédeas de um carro. Ele se converte em verdadeiro, e não só em teoria, em “Senhor”, em quem “rege”, quem “governa” determinando, pode-se dizer, momento a momento, os gestos, as palavras dessa pessoa, seu modo de utilizar o tempo, tudo.
Esta “direção espiritual” exerce-se por meio das “boas inspirações” e com mais frequência ainda nas palavras de Deus da Bíblia. Lês ou escutas passagens da Escritura e eis aqui uma frase, uma palavra, ilumina-se. Sentes que te interpela, que te indica o que há que fazer. Aqui decide-se obedecer a Deus ou não. O Servo de Javé diz de si em Isaías: “Manhã após manhã desperta meu ouvido para escutar como discípulo” (Is. 50,4). Também nós, a cada manhã, na Liturgia das Horas ou da Missa, deveríamos estar com o ouvido atento. Nela há quase sempre uma palavra que Deus dirige-nos pessoalmente e o Espírito não deixa de atuar para que se reconheça entre todas.
Apresentar os assuntos a Deus
Esta via da obediência a Deus não tem, por si, nada de místico ou extraordinário, mas está aberta a todos os batizados. Consiste em “Apresentar os assuntos a Deus”, segundo o conselho que um dia deu a Moisés seu sogro Jetro (Cf. Ex 18,19). Eu posso decidir por mim mesmo tomar uma iniciativa, fazer ou não fazer uma viagem, um trabalho, uma visita, um gasto, e depois, uma vez decidido, rogar a Deus pelo êxito do assunto. Mas se nasce em mim o amor da obediência a Deus, então atuarei de forma diferente: perguntarei a Deus, com o meio simplíssimo que é a oração, se é sua vontade que eu realize essa viagem, esse trabalho, aquela visita, aquele gasto, e depois o farei ou não, mas já será, em todo caso, um ato de obediência a Deus, e não já uma livre iniciativa de minha parte.
Atuando assim, de fato, submeti o assunto a Deus, despojei-me de minha vontade, renunciei a decidir só e dei a Deus uma possibilidade de intervir, se quiser, em minha vida. O que agora decida fazer, regulando-me com os critérios ordinários de discernimento, será obediência a Deus.
Como o servidor fiel não toma jamais a iniciativa nem atende uma ordem de estranhos sem dizer: “Devo escutar antes meu patrão”, igualmente o verdadeiro servo de Deus não empreende nada sem dizer-se a si mesmo: “Devo orar um pouco para saber o que quer meu Senhor que eu faça!”. Assim se cedem as rédeas da própria vida a Deus! A vontade de Deus penetra, desta forma, cada vez mais capilarmente no tecido de uma existência, embelecendo-a e fazendo dela um “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12,1). Toda a vida converte-se em uma obediência a Deus e proclama silenciosamente sua soberania na Igreja e no mundo.
Deus – dizia São Gregório Magno – “às vezes nos adverte com as palavras, às vezes, ao contrário, com os fatos” (1), isto é, com os acontecimentos e as situações. Existe uma obediência a Deus – com freqüência entre as mais exigentes – que consiste simplesmente em obedecer às situações. Quando se viu que, apesar de todos os esforços e os rogos, há em nossa vida situações difíceis, às vezes até absurdas e – em nossa opinião – espiritualmente não produtivas, que não mudam, é necessário deixar de “dar murros contra a parede”, e começar a ver nelas a silenciosa, mas resoluta vontade de Deus em nós. A experiência demonstra que só depois de ter pronunciado um “sim” total e desde o profundo do coração à vontade de Deus tais situações de sofrimento perdem o poder angustiante que têm sobre nós. Vivemo-las com mais paz.
Um caso de difícil obediência às situações é o que se impõe a todos com a idade, ou seja, a aposentadoria da atividade, o cessar da função, ter de passar o testemunho a outros deixando talvez incompletos e suspensos projetos e iniciativas em andamento.
Certamente não se trata de ironizar sobre uma situação delicada, ante a qual ninguém sabe como reagir até que não chegue. Esta é uma das obediências que mais se aproximam à de Cristo em sua Paixão. Jesus suspendeu o ensinamento, truncou toda atividade, não se deixou reter pelo pensamento de o que acontecerá com seus discípulos; não se preocupou de que seria de sua palavra, confiada, como estava, unicamente à pobre memória de alguns pescadores. Nem sequer deixou reter pelo pensamento de que deixava sozinha uma Mãe. Nenhum lamento, nenhum intento de fazer mudar a decisão ao Pai: “Para que o mundo saiba que amo o Pai, e que faço segundo o Pai me ordenou. Levantai-vos – disse –, vamos” (Jo 14,31).
Maria, a obediente
Antes de terminar nossas considerações sobre a obediência, contemplemos um instante o ícone vivo da obediência, aquela que não só imitou a obediência do Servo, mas que a viveu com Ele. Santo Irineu escreve: “Paralelamente (entende-se Cristo novo Adão), encontra-se que também a Virgem Maria é obediente, quando diz: ‘Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo tua palavra’ (Lc 1,38). Como Eva, desobedecendo, converteu-se em causa de morte para ela e para todo o gênero humano, assim Maria, obedecendo, converteu-se em causa de salvação para ela e para todo o gênero humano” [2]. Maria se assoma à reflexão teológica da Igreja (estamos, de fato, na presença do primeiro esboço de mariologia) através do título de obediente.
Também Maria obedeceu com segurança a seus pais, à lei, a José. Mas não é nestas obediências nas quais pensa Santo Irineu, mas em sua obediência à palavra de Deus. Sua obediência é a antítese exata à desobediência de Eva. Mas – outra vez – a quem desobedeceu Eva para ser chamada a desobediente? Certamente não a seus pais, dos que carecia; tampouco ao marido ou a alguma lei escrita. Desobedeceu à palavra de Deus! Como o “Fiat” de Maria situa-se, no Evangelho de Lucas, junto ao “Fiat” de Jesus no Getsêmani (Cf. Lucas 22,42), assim, para Santo Irineu, a obediência da nova Eva coloca-se junto à obediência do novo Adão.
Sem dúvida Maria terá recitado ou escutado, durante sua vida terrena, o versículo do Salmo no qual se diz a Deus: “Ensina-me a cumprir tua vontade” (Sl 142,10). Nós dirigimos a Ela a mesma oração: “Ensina-nos, Maria, a cumprir a vontade de Deus como a cumpriste tu!”.
[1] S. Gregório Magno, Omelie sui vangeli, 17,1 (PL 76, 1139).
[2] S. Ireneu, Adv. Haer. III, 22,4.
A Vocação de Maria e a Nossa Vocação
Publicado por Marcus em A Grande Mãe de Deus, Artigos em julho 7, 2010
Uma única palavra resume as relações de Deus com a humanidade: Aliança. No centro do plano divino está a vontade de selar um pacto de amor com as criaturas. O deus absoluto e todo poderoso, o único, o Ser necessário e totalmente transcendente quer comunicar-se, deseja estabelecer um diálogo com o ser humano. Deus nos criou para nos transmitir seus bens. Não permanece longe, mas vem até nós para doar-se. A criação inteira é fruto dessa vontade de amor. Deus cria por amor e para amar. É o único motivo. Por isso cria o homem à sua imagem e semelhança, capaz de dialogar, de responder a seu convite para amar, para doar-se.
Toda a história da Bíblia é a história dessa aliança de amor. E essa história, para ser construída, requer sempre, a iniciativa de Deus e a resposta do homem. A Bíblia nos mostra a liança de Deus com Adão e Eva, com Noé, com Abraão, com Moisés, com todo o povo de Israel. Deus chama o homem com um amor gratuito, mas convoca-o a experimentar este amor e ser instrumento dele para que outros o experimentem também. A história da Salvação é toda tecida desta cooperação constante entre Deus e os homens.
O que assombra o ser humano é o fato de, ao mesmo tempo que experimentam a grandeza infinita de Deus, percebem que o Deus infinito quis necessitar de sua cooperação para a realização de seus planos de amor. Quis ser um com ele, e realizar uma obra de amor com a sua cooperação. Foi assim que Moisés se assombrou. Veja êxodo 3,1-12. E Moisés teve medo. Veja êxodo 4,1-18. Deus quer que o homem capte as suas demonstrações de amor e que assuma um compromisso com Ele. À sua ação deve se seguir uma reação do homem. Ele quer ser ouvido e seguido.
Desde que Deus criou o homem, este é convidado a viver esta aliança de amor, e ser cooperador dele. Se voltarmos ao Gn 1,28 veremos este convite feito ao primeiro homem e à primeira mulher. Mas se formos ao Gn 3,1-19 veremos que desde o princípio a história da humanidade está marcada pela infidelidade à esta aliança de amor. Veremos também que há um ser pervertido e perversor, um anjo decaído, o demônio, que vive a tentar o homem para que este quebre sua aliança com Deus.
Nossa Senhora jamais quebrou esta aliança, ao contrário, foi fiel ao convite de deus desde o princípio. Ontem vimos que a sua resposta ao convite para ser a Mãe do filho de Deus foi: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”(Lc 1,38). E este sim foi repetido durante toda a sua vida, nos momentos mais difíceis: quando teve de dar à luz num estábulo, quando teve que fugir para o Egito para que o menino não fosse morto pelo rei Herodes, e principalmente quando teve de vê-lo morrer numa Cruz, incompreendido por aqueles a quem amava, e por quem entregara toda a sua vida.
Um grande segredo de amor envolvia esta fidelidade de Maria na sua aliança com Deus, a sua cooperação incondicional com a Graça divina: Humildade e Confiança. Maria se fez sempre pequena serva. Não se arrogou de direitos, não desejou fazer valer uma pretensa justiça humana. Orgulhosos que somos, basta-nos muito pouco para nos julgarmos justos e merecedores de grandes favores de Deus e dos irmãos. Basta-nos um pouco de autoconfiança, muito pouco mesmo, para nos compararmos e considerarmos os que estão ao nosso lado como irresponsáveis, incompetentes e inféis. Basta-nos que Deus nos peça um pouco de sacrifício ou de sofrimento, para tantarmos o mais rápido possível do nosso fardo jogando-os nas costas dos outros. Basta-nos a nossa vida, os nossos problemas, as nossas feridas, para não enxergarmos os problemas nem as feridas dos irmãos, e nos tornarmos terríveis carrascos deles. Maria foi o anti-orgulho. Não se arvorou de muita coisa por que Deus lhe chamou para ser mãe do Seu Filho. Se tivesse sentido orgulho, provavelmente teria chamado Isabel para serví-la, e não teria atravessado o deserto para servir sua prima. Teria se achado o centro, a digna de ser ajudada, e nem teria percebido que neste exato momento era a sua prima que necessitava de sua ajuda. Maria não era centrada em si, mas em Deus e na sua vontade.
Maria não vivia em torno de si mesma, e dos seus pequenos sonhos e planos, mas em torno de Deus e da sua vontade. Maria não tentava misturar o que era sua vontade, com a vontade de Deus, mas abandonava inteiramente sua vontade em prol de fazer a vontade de Deus. Por isto era capaz de captar as necessidades dos irmãos, e ao contrário de colocar fardos nos ombros dos outros, os tirava. Maria não se fez Rainha, por isto Deus a fez Rainha.
Maria confiou em Deus. Não colocou sua confiança em pessoas, em coisas, em títulos, em elogios, em confirmações que viessem dos outros. Maria simplesmente deu o seu ser para que nela se cumprisse a vontade de Deus: ” Faça-se em mim”, ela disse. Maria buscava veeementemente a vontade de Deus para si, e sabia que esta vontade sempre exigiria dela abandonar seus próprios planos. Ela sabia que Deus tem a última palavra em tudo, e via em tudo a vontade de Deus, e não a dos homens. Tudo vinha de Deus. Nós somos idólatras de nós mesmos e dos nossos irmãos. Não confiamos suficientemente em deus, e por isso sempre esperamos nas criaturas. E nos decepcionamos, porque elas não são deuses. Nós fabricamos ídolos, para que estejam ao redor de nós, a fim de nos servir quando precisamos. E nos decepcionamos. Não vamos para Deus, porque no fundo sabemos que ele não fará a nossa vontade, não nos fará de crianças, mas quer formar pessoas maduras, que escolham unicamente ele e a sua vontade. Quer que estejamos sós diante dele para dizer o nosso sim sem contar que seja outro e não nós a levar o momento sacrificado do nosso sim. Por isso nos tira as pessoas. Por isso muitas vezes nos faltou, nos falta, e nos faltarão a compreensão dos pais, dos amigos, dos irmãos mais queridos. Tudo para que esperemos só em Deus, e nos dirjamos aos irmãos sem interesse próprio algum, mas unicamente para serví-los, para amá-los gratuitamente. Assim fez Maria visitando Isabel.
E foi porque se desprendeu das criaturas, e disse seu sim com total humildade e confiança, que Maria recebeu de Deus a confirmação que lhe veio pelos lábios de Isabel: “Bendita és Tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”(Lc 1,42). Se escutássemos hoje de Deus estas palavras: “Bendito ou bendita és tu, benditas são os frutos das tuas obras, do teu sim a Deus”, seríamos curados num instante de toda auto-imagem negativa. Porém, para escutar estas palavras, é preciso antes escutar e dizer sim à vontade de Deus para nós. Somente no centro da vontade de Deus está a nossa cura, a nossa libertação. Somente clamando antes a Deus a graça de esquecermos de nós mesmos, das exigências e queixas que por tantos anos guardamos em relação aos nossos pais e irmãos, somente se estivermos dispostos a nos despojar da criança mimada e egoísta que há dentro de nós, é que poderemos experimentar a cura da nossa auto-imagem negativa, e enfim poderemos cantar como Maria: “Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu salvador, porque olhou para seu pobre servo, ou sua pobre serva (Maria representa todas as criaturas na sua fragilidade humana). Por isto desde agora me proclamarão bem aventurado ou bem aventurada, todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. Sua misericórdia se estende, de geração em geração sobre os que o temem”(Lc 1,46-50).
Maria sempre experimentou, em todas as situações, a gratuidade do Seu amor por ela. E ela também era gratuita no seu amor a Deus. Fazera vontade de Deus, ser fiel a Deus nunca foi para ela motivo de exigir que Deus a recompensasse com mimos. Não demos a vida a nós mesmos. Nada temos por nós mesmos. Tudo na nossa vida é um presente de Deus. A nossa vida é um grande presente de Deus. As alegrias, as tristezas, são um presente de Deus, às vezes misteriosos, mas que um dia compreenderemos. não é necessário compreender, mas aceitar com humildade e confiança que tudo é um presente de amor de Deus. Deus está por trás de todos os acontecimentos de nossa vida. Há coisas que nos sucederam que ele não gostaria que fosse assim, mas permitiu. A nossa liberdade, ou a de nossos irmãos foi mal usada, mas Ele é Deus, capaz de transformar todas as coisas porque nos ama. Isto não é desculpa para permanecermos crianças mimadas e insistentes em nossos planos egoístas, porque quando nos afastamos da vontade de Deus, embora ele continue nos amando, não conseguimos perceber isto, e podemos jogar fora a nossa união definitiva com Ele. Isso é muito sério. Podemos optar pelo inferno, e isto Ele não vai impedir. Embora Ele esteja trabalhando sempre pela nossa salvação, esta é uma opção nossa, que Ele não vai impedir.
Precisamos pedir a Deus a cura para nossas feridas, mas precisamos pedir a Deus acima de tudo a Sua Graça, que é o maior presente. Foi pela Graça de Deus que Maria realizou a vontade de Deus para sua vida, e todos nós somos hoje beneficiados. Precisamos louvar a Deus porque Maria o amou antes de si mesma e antes de todas as criaturas. Ela sempre escolheu Deus e a sua vontade. Maria não se sentia uma pessoa nula, péssima, mal amada. Ela não sofria de auto imagem negativa. os olhos dela nunca estiveram nela mesma ou em seus traumas, mas estavam postos na grande bondade de Deus. estava sempre a recordar suas maravilhas, e aquilo que de doloroso lhe sucedia era recebido no silêncio e na humildade, mas especialmente na confiança de que Deus é sempre amor. Peçamos hoje a Maria a Graça de sermos tirados do centro de nós mesmos, e assim curados na nossa auto imagem. peçamos a Maria, que ela “arranque” do coração de Deus a Graça de termos unicamente Deus como centro de nossas vidas. Que todas as dores, as mágoas, as feridas, os sentimentos de incapacidade, de ser desprezado, não amado, tudo isto seja colocado no coração de Maria, que está sempre unido ao coração de Jesus e do Pai. E que hoje, o fogo do espírito santo possa queimar tudo isto e nos dar um auto imagem nova, límpida, resplandescente, e possamos dizer com ela: “Realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo” (Lc 1,49).
Texto da Escola de Formação Shalom
escoladeformacao@comshalom.org
Maria sempre virgem.
Publicado por Marcus em A Imaculada Conceição, Artigos, Ave-Maria, Cheia de Graça, Dogmas Marianos, Virgindade Perpétua em julho 5, 2010
A Igreja tem constantemente manifestado a própria fé na virgindade perpétua de Maria. Os textos mais antigos, quando se referem à concepção de Jesus, chamam Maria simplesmente “Virgem”, deixando contudo entender que consideravam essa qualidade como um fato permanente, referido à sua vida inteira.
Os cristãos dos primeiros séculos expressaram essa convicção de fé mediante o termo grego aeiparthenos – “sempre virgem” – criado para qualificar de modo singular e eficaz a pessoa de Maria, e exprimir numa só palavra a fé da Igreja na sua virgindade perpétua. Encontramo-lo usado no segundo símbolo de fé de Santo Epifânio, no ano 374, em relação à Encarnação: o Filho de Deus “encarnou-Se, isto é, foi gerado de modo perfeito pela Santa Maria, a sempre Virgem, por obra do Espírito Santo” (Ancoratus, 119,5; DS 44).
A expressão “sempre Virgem” é retomada pelo II Concílio de Constantinopla (553), que afirma: o Verbo de Deus, “tendo-Se encarnado da santa gloriosa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, nasceu dela” (DS 422). Esta doutrina é confirmada por outros dois Concílios Ecumênicos: o Lateranense IV (1215) (DS 801) e o Concílio de Lião (1274) (DS 852), e pelo texto da definição do dogma da assunção (1950) (DS 3903), no qual a virgindade perpétua de Maria é adotada entre os motivos da sua elevação, em corpo e alma, à glória celeste.
Mediante uma fórmula sintética, a tradição da Igreja apresentou Maria como “virgem antes do parto, no parto, e depois do parto”, reafirmando, através da indicação destes três momentos, que ela jamais cessou de ser virgem. Das três, a afirmação da virgindade “antes do parto”, é, sem dúvida, a mais importante, porque se refere à concepção de Jesus e toca diretamente o próprio mistério da Encarnação. Desde o início ela está constantemente presente na fé da Igreja.
A virgindade “no parto” e “depois do parto”, embora contida implicitamente no título de virgem, atribuído a Maria já nos primórdios da Igreja, torna-se objeto de aprofundamento doutrinal no momento em que alguns começam implicitamente a pô-la em dúvida. O Papa Ormisdas esclarece que “o Filho de Deus Se tornou filho do homem, nascido no tempo como um homem, abrindo no nascimento o seio da Mãe (cf. Lc 2, 23) e, pelo poder de Deus, não destruindo a virgindade da Mãe” (DS 368). A doutrina é confirmada pelo Concílio Vaticano II, no qual se afirma que o Filho primogênito de Maria “não só não lesou a sua integridade virginal, mas antes a consagrou” (LG 57). Quanto à virgindade depois do parto, deve-se antes de tudo observar que não há motivos para pensar que a vontade de permanecer virgem, manifestada por Maria no momento da Anunciação (Lc 1,34), tenha sucessivamente mudado. Além disso, o sentido imediato das palavras: “Mulher, eis aí o teu filho”, “Eis aí a tua Mãe” (Jo 19,26-27), que Jesus da cruz dirige a Maria e ao discípulo predileto, faz supor uma situação que exclui a presença de outros filhos nascidos de Maria. Os negadores da virgindade depois do parto pensaram encontrar um argumento comprovante no termo “primogênito”, atribuído a Jesus no Evangelho (Lc 2,7), como se essa locução deixasse supor que Maria tenha gerado outros filhos depois de Jesus. Mas a palavra “primogênito” significa literalmente “Filho não precedido por outro” e, em si, prescinde da existência de outros filhos. Além disso, o evangelista ressalta esta característica do Menino, pois ao nascimento do primogênito estavam ligadas algumas importantes observâncias próprias da lei judaica, independentemente do fato que a Mãe tivesse dado à luz outros filhos. Todo o filho único estava, pois, sob essas prescrições porque “o primeiro a ser gerado” (cf. Lc 2,23).
Segundo alguns, a virgindade de Maria depois do parto seria negada por aqueles textos evangélicos que recordam a existência de quatro “irmãos de Jesus”: Tiago, José, Simão e Judas (Mt 13, 55-56; Mc 6,3), e de suas diversas irmãs. É preciso recordar que, tanto em hebraico como em aramaico, não existe um vocábulo particular para exprimir a palavra “primo” e que, portanto, os termos “irmão” e “irmã” tinham um significado muito amplo, que abrangia diversos graus de parentesco. Na realidade com o termo “irmãos de Jesus” são indicados “os filhos duma Maria discípula de Cristo” (cf. Mt 27,56), designada de modo significativo como a “outra Maria” (Mt 28,1). Trata-se de parentes próximos de Jesus, segundo uma expressão conhecida do Antigo Testamento” (Catecismo da Igreja Católica, n. 500).
Maria Santíssima é, pois, a “sempre Virgem”. Esta sua prerrogativa é a consequência da maternidade divina, que a consagrou totalmente à missão redentora de Cristo.
DO Livro: A VIRGEM MARIA “58 CATEQUESES DO PAPA JOÃO PAULO II”



