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Maria, o lindo sonho de Deus

- Neste Fórum temos falado sobre o fogo de Deus. Hoje eu gostaria de falar sobre como este fogo pode ser vivido dentro de nós, na nossa humanidade, na nossa vida, como um homem e uma mulher inteiros, na nossa história, no nosso espírito, no nosso amar, no nosso agir, no nosso ser. Porque esse fogo, para se espalhar sobre a terra, precisa primeiro se espalhar em mim. Para que esse fogo possa queimar a Terra, precisa primeiro queimar em mim, arder em mim, purificar aquilo que sou.

Falaremos disso através da mediação da pessoa que mais inteiramente correspondeu ao desejo de Deus de trazer o fogo sobre a Terra: Na verdade, ninguém trouxe o fogo sobre a Terra como Nossa Senhora!

O livro do Gênesis fala que a Terra era sem forma e vazia. E a primeira coisa que Deus criou foi a luz. Fogo e luz, na Bíblia, estão muito relacionados. E a cada nova criação, se completava um dia, e a cada nova aurora Ele recomeçava a criação nesse hino litúrgico que é o capítulo 1 do Gênesis.
A última criação de Deus foi o homem e a mulher. Ele entregou o homem à mulher e a mulher ao homem para que vivessem um relacionamento de reciprocidade, para que se amassem e se doassem um ao outro como um auxílio de felicidade. O homem ama a mulher, se entrega por ela, se dá para que ela seja feliz e a mulher ama o homem, se entrega a ele e se doa para o homem ser feliz. Dessa forma eles estariam reproduzindo na Terra a mesma doação que a Trindade tem em si. O homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus para este tipo de amor, que tem o seu parâmetro na Trindade. É assim que a Trindade ama, é assim que devemos nos amar.

Quantos tipos de amor existem no mundo? Só um. Só existe o amor de Deus. Só o amor de Deus é amor! E esse amor de Deus se expressa de formas diferentes: no casamento, no celibato, entre irmãos espirituais de sangue, no sacerdócio, entre amigos. É o amor de Deus que se expressa de modos diferentes, mas é sempre o mesmo amor.

E o homem era muito feliz! Tudo era dia, no sentido de que no coração humano brilhava o fogo do amor. Quanto mais o homem amava a mulher, mais este fogo brilhava nele. Quanto mais a mulher amava o homem, mais este fogo brilhava nela e mais os dois viviam em intimidade com Deus. A intimidade com Deus reside no amar, no orar para amar, no orar para ser amor, no orar para amar o irmão.

Uma promessa
Até que sobre a terra o aconteceu o pecado de origem, o primeiro pecado. E se estabeleceu no coração do homem a treva mais densa que pode existir. Mas Deus, na sua misericórdia, fez uma promessa: “Colocarei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela”. Ou seja, Deus prometeu que criaria uma mulher que essa mulher seria novamente condutora da luz, seria a aurora, seria aquela que traria a luz, aquela que anunciaria e que traria a luz. E a partir desse momento, Nossa Senhora passou a existir como profecia.

Muitos e muitos séculos antes dela nascer, Nossa Senhora foi anunciada pelo próprio Deus e se tornou uma profecia. O mundo será salvo e a salvação virá através de uma mulher. Diz o Papa João Paulo II, na carta Mulheris Dignitatem, que é aí que reside a dignidade da mulher. A dignidade mais alta da mulher reside no fato de ela ter sido aquela por quem, ou por cuja raça, ou por cuja irmã, que é Maria, veio à Terra o próprio Deus. Daí, Nossa Senhora começa a ser essa aurora, não tão bem entendida pelos que viviam naquela época, porém sempre esperada, sempre anunciada.

“Uma virgem conceberá e dará à luz um filho e esse filho será o Emanuel, o Deus conosco”. Os que viviam naquela época não entendiam, mas sabiam que o messias viria através de uma mulher. Nossa Senhora foi profetizada como o sonho lindo de Deus.

Na promessa divina Nossa Senhora vai avançando como a aurora, brilhando como a lua, precedendo o sol – isso contagia a todos nós! Precedemos a Jesus, vamos como anunciadores e profetas, com a nossa vida, sendo aurora para Jesus.

Nossa Senhora e o fogo
E nas várias ocasiões em que a Palavra de Deus usa o fogo podemos já ver Maria. Como não veríamos Maria grávida na imagem da sarça ardente, cheia de fogo, que queima sem consumir? Como não poderíamos ver em Maria grávida, o brilho deste Deus que é o “Eu Sou”, o “Deus Iahweh”? Quando Jesus foi encarnado, no seio de Maria, a chama viva do amor de Deus passou a viver no seio dela. E Nossa Senhora, com toda a certeza, brilhava, queimava de amor.
Como não veríamos Nossa Senhora na coluna de fogo que guiava o povo de Israel nas noites no deserto? Essa que é aurora do novo sol, é coluna de fogo que vai conduzindo, no deserto, o povo de Deus. na escuridão do deserto, no dia eles viam a nuvem, à noite viam a coluna de fogo. Como posso olhar para Maria e não ver dentro dela o incêndio de amor causado pela presença de Deus na sua alma, no seu corpo, na sua feminilidade, no seu serviço e nos seus atos de amor? De maneira especial, como não ver a coluna de fogo em Maria, de pé, aos pés da cruz? É a coluna que indica: “Eis o salvador, eis o caminho”. Do mesmo modo que a coluna de fogo foi guiando o povo através do deserto, nas noites escuras e muito frias do deserto, onde a coluna de fogo andava, também andava o povo; também Maria de pé, aos pés de Jesus que agoniza, Maria se estica e se torna então a consoladora, o amor que se dá, o amor que pensa mais na dor do outro do que na sua dor.

Também temos de ver o mistério de Nossa Senhora no carro de fogo de Ezequiel. Aquele carro que Ezequiel nunca conseguiu descrever de maneira física, mas como um mistério de amor, de entrega e de salvação.

Como nós não veríamos Nossa Senhora como a mulher louvor, na fornalha ardente? Essa fornalha que arde sem queimar e enche de dança os três jovens e o anjo. Quando olhamos para o Magnificat, com o coração, com o corpo, com a alma em chamas de amor e de gratidão, Nossa Senhora também dança, glorifica, canta os louvores de Deus, ardendo sem se queimar.
Podemos ainda ver Nossa Senhora no fogo que queima o sacrifício de Elias e que destrói a idolatria. Sabemos que pelo amor de união e pelo poder de intercessão que Deus deu a Nossa Senhora ela acaba a idolatria.

Como não veríamos Nossa Senhora como a mulher oração diante do fogo que queimava no Templo, diante do santo dos santos, o fogo perpétuo?

Nossa Senhora é também a mulher acolhida no fogo do lar. Nossa Senhora é a mulher oração, é a mulher aurora, é a mulher louvor, é a mulher com poder de intercessão, a mulher aos pés da cruz e é também a mulher acolhimento, aquela que acolhe no fogo do lar. No lar de Nazaré sempre havia fogo, porque sempre chegava alguém – um parente, um amigo – então, sempre havia pão quente. Era, portanto, uma casa quente, uma casa pronta para servir. Como o lar de Abraão e Sara, quando que fizeram pão para os anjos; como o de Marta e Maria, que acolhiam Jesus com dois fogos diferentes, mas ambos muito eficazes: Marta com o fogo do fogão e Maria com o fogo do coração.

Há uma passagem de Baruc 3 que diz assim: “Brilham as estrelas no céu, tu as olha e as chama: ‘Senhor!’ e elas pronta e alegremente dizem: ‘Eis-me aqui’”. Como vocês sabem, a estrela também é fogo e é impossível não vermos Maria nas estrelas do céu, às quais o Senhor sustenta e para as quais o Senhor olha e chama, e elas, felizes, refulgem para o seu criador dizendo, cada uma: “Eis-me aqui”. É Nossa Senhora a mulher adoração, que brilha para o seu Criador sem esperar recompensa; a mulher gratuidade, que se dá sem ficar pedindo, mas brilhando, amando, dando…

Como não veríamos Nossa Senhora no êxtase da mulher esposa do Espírito quando são derramadas as línguas de fogo, quando o fogo que brilhava dentro dela brilhou também fora?

Como não veríamos nos olhos de Nossa Senhora Assunta ao céu o brilho do Cordeiro que ilumina o céu, que não precisa mais de luz, porque o Cordeiro é a própria luz?

Como poderíamos deixar de vê-la em cada homem e em cada mulher que se enche de luz quando entra em contato com Cristo?

Como não ver, finalmente, Nossa Senhora na dignidade de cada mulher? Aqui cito João Paulo II: “Cada mulher, cuja extraordinária dignidade é manifestada na plenitude dos tempos, em Maria, elevada de forma sobrenatural à união com Deus, pela união entre mãe e filho que só a mulher tem como viver”.

Nossa Senhora é feliz por ser mulher
Às vezes somos acostumados a ver nossa Senhora como uma pessoa que não é gente, mas a graça a transforma na realização do sonho de Deus para você e para mim. E o que Deus quer é que a sua glória brilhe dentro de você, dentro de mim, para que o mundo pegue fogo.
Quando Moisés falava com Deus face a face tinha de esconder o rosto, porque se enchia de brilho. Nossa Senhora fala com Deus dentro, de coração para coração, e na face dela brilha a própria face de Deus.

Quais são as imagens de Nossa Senhora que vemos? Fátima, Lourdes, Rainha da Paz, Loreto, Guadalupe… Tem algo que não sei se vocês acham estranho, mas eu acho. Vemos as imagens de Nossa Senhora sozinha, como Fátima, Nossa Senhora das Graças, Guadalupe, Lourdes… vemos as imagens de Nossa Senhora com Jesus no colo e depois pula para a imagem de Nossa Senhora com Jesus morto, nos braços. Se eu fosse artista, queria pintar Nossa Senhora assim no chão, dizendo: “Ei, nenê, vem cá com a mamãe”; queria pintá-la levantando as perninhas de Jesus e mudando a fralda dele; embalando Jesus num balanço ou levantando-o assim e dizendo: “Coisa linda da mãezinha!” e a babinha de Jesus caindo no rosto dela, senão na boca, porque parece que menino acerta; queria pintar Nossa Senhora dizendo: “Jesus, tá na hora de comer!” ou “Meu filho, você já escovou os dentes?” ou “Jesus, não dá certo pentear o cabelo para esse lado, você tem um redemoinho bem aqui”; queria pintar Nossa Senhora com Jesus adolescente, não só lá no Templo, mas travando com Jesus um relacionamento de amizade. Essa mãe que dizia a São José: “José, pelo amor de Deus, espera aí, calma, olha que o menino é filho de Deus… José, larga esse menino devagar…”. Essa Nossa Senhora humana, mãe.

Essa Nossa Senhora que conversa com Jesus sobre as coisas de Deus, que conhece Jesus em profundidade e tem com Ele um relacionamento profundamente humano. Tudo o que é profundamente humano é profundamente divino e tudo que é profundamente divino, exceto Deus, em si próprio é profundamente humano.

Precisamos entender que Nossa Senhora é feliz por ser mulher, por ser gente e é capaz de entender essa dignidade da qual o Papa fala.

Nossa Senhora serve porque ama
Um dia perguntaram a um grande mestre: “Mestre, quando é que o amor é verdadeiro?” O mestre respondeu: “Quando ele é fiel”. E perguntaram: “E quando é que o amor é profundo?” O mestre respondeu: “Quando ele sofre”. E perguntaram: “E que língua fala o amor?” O mestre respondeu: “O amor não fala, o amor ama”. Nossa Senhora foi serviço porque amou.

Em geral, quando se vai falar do serviço de Nossa Senhora, colocam-na na casa de Santa Isabel. Será que não podemos ver Nossa Senhora no serviço do ser e não no serviço do fazer somente? Não podemos ver Nossa Senhora que ao ser mulher, ao ser mãe de Deus, amou e amando serviu a Jesus e a José e aos irmãos e aos vizinhos? É preciso ver que o serviço vai além do fazer. O amor de Deus em nós gera amor e atos de amor em nós.
O grande serviço de Nossa Senhora era amar. Nossa Senhora expressa o fogo de amor que queima dentro dela através do serviço, através da acolhida. “Onde reina o amor, ali se encontram olhos que sabem ver”.

Vamos todos aprender a ver com estes óculos, com o olho do coração. O que será acolher? J.S. Helliot escreveu: “Ah! O indizível conforto de nos sentirmos seguros com uma pessoa. Cresce a síndrome do pânico, cresce a desconfiança, cresce a insegurança, cresce a falta de ternura, a falta de acolhida. O conforto de não termos de pesar os nossos pensamentos, o conforto de não termos que medir as nossas palavras mas de podermos derramar as nossas palavras tais como são. O joio e o trigo misturados, sabendo que mão fiel os irá apanhar e os irá peneirar. Conservar o que merece ser conservado e depois, com o sopro da bondade, soprar fora o resto”.

Você não gosta quando você pode chegar para uma pessoa e saber que ela não vai jogá-lo fora? Você não gosta quando pode conversar com uma pessoa sem ter de medir os pensamentos nem as palavras, pois sabe que ela vai acolhê-lo com o seu joio e com o seu trigo? Saber que ela vai acolhê-lo como você é e depois peneirar o joio e o trigo e com o sopro da bondade soprar fora o joio e se alegrar pelo trigo que ficou? A acolhida.

Temos vivido num mundo de desconfiança, de defesas. Não era assim. E não é assim a acolhida de Nossa Senhora. Nossa Senhora Jesus jamais exigiram que alguém mudasse para acolhê-los. Nossa Senhora, como Jesus, nos acolhem como somos, mas esquecemos essa ternura. Esquecemos Nossa Senhora, esquecemos que queremos ser acolhidos e não amamos os outros como gostaríamos de ser amados.

Nossa Senhora ensina a acolher
“Meu único desejo, homem, é ser o teu parente. Sejas tu negro ou acrobata, repouses ainda nas profundezas da guarda materna, vibre no pátio o teu canto de menina e dirija as tuas jangadas ao sopro do crepúsculo… conheço bem a angústia da harpista solitária, da tímida mulher, no seio de uma família estranha. Conheço a solidão dos que envelhecem, mas homem, eu quero só ser teu companheiro. Eu te pertenço. Como a qualquer outro homem, eu te pertenço. Sem preconceito, sem desconfiança, sem medo. Eu te pertenço, como a qualquer outro homem, como a qualquer outra mulher, eu te pertenço. Suplico-te, não te recuses! Se isso pudesse acontecer meu irmão, ah! Se pudesse acontecer, que nós finalmente caíssemos nos braços um do outro”.

Temos esquecido o acolhimento, temos esquecido a ternura. Temos feito dos nossos grupos de oração e das nossas comunidades, verdadeiras empresas que se levam como negócios de evangelização e se esquecem da ternura, se esquecem do olhar de ternura. Nem nos trocamos mais olhares de ternura. E Nossa Senhora pode vir em nosso socorro.

As nossas famílias, as levamos como um trem que passa rápido e que tem de parar em todas as estações, e nos esquecemos de olhar o outro com ternura, de acolhê-lo, de ver o outro com os olhos do coração. Nossa Senhora vive este fogo de amor que queima no coração dela como serviço, acolhida e agora Nossa Senhora vive a força deste amor que ama nela, que a ama e a quem ela ama.

Nossa Senhora vive esse fogo na força do humilde amor. No livro “Os irmãos caramasol”, de Dostoievsk, um monge russo diz as seguintes palavras: “Irmãos, não temais o pecado dos homens, amai os homens mesmo no seu pecado”. Não fique exigindo que as pessoas mudem ou sejam diferentes para você amar.

Se só existe um amor, Nossa Senhora amou com esse um amor que é o amor de Deus. E o amor de Deus ama o homem pecador. E o amor de Nossa Senhora é esse fogo do amor de Deus que queima nela ama o homem pecador.

“Amai os homens mesmo em seu pecado, porque esta imagem do amor de Deus é também o cume do amor de Deus sobre toda a Terra. Amai toda a criação divina em seu conjunto e em cada grão de areia. Amai toda a neve e todo o raio de sol. Os animais, as plantas, todas as coisas. Amai particularmente as crianças, porque são como anjos, não têm pecado e existem para nos ensinar a ternura, para purificar os nossos corações e são para nós como uma profecia. Às vezes te vêm alguns pensamentos, especialmente quando tu te vês diante do pecado do mundo. Tu ficas perplexo e te perguntas: ‘eu devo reagir com a força ou devo escolher o humilde amor?’, e eu te digo: decida-te sempre pelo humilde amor, e diga sempre: ‘eu recorrerei ao humilde amor’. Se tomares esta decisão de uma vez por todas, poderás elevar o mundo inteiro. O amor humilde, o humilde amor é uma força formidável, a maior de todas, incomparável a qualquer outra força.”

Nossa Senhora expressou este fogo de amor que arde no coração dela, esse fervor que Deus pediu hoje, esse fervor que Deus pediu hoje não é o fervor de orar forte, que é muito bom, mas este fervor que só existe e só é autêntico quando vem do amor, do amor concreto, do amor em ato, do amor sem preconceito, do amor sem medo.

Maria Emmir O. Nogueira
Co-Fundadora e Formadora Geral da Comunidade Shalom
Pregação ministrada no Fórum Carismático Shalom em novembro de 2002 – mantido o tom coloquial

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A Bem Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus

I. PROÉMIO

A Virgem mãe de Cristo 52. Querendo Deus, na Sua infinita benignidade e sabedoria, levar a cabo a redenção do mundo, «ao chegar a plenitude dos tempos, enviou Seu Filho, nascido de mulher,… a fim de recebermos a filiação adoptiva» (Gál. 4, 4-5). «Por amor de nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus e encarnou na Virgem Maria, por obra e graça do Espírito Santo» (171). Este divino mistério da salvação é-nos relevado e continua na Igreja, instituída pelo Senhor como Seu corpo; nela, os fiéis, aderindo à cabeça que é Cristo, e em comunhão com todos os santos, devem também venerar a memória «em primeiro lugar da gloriosa sempre Virgem Maria Mãe do nosso Deus e Senhor Jesus Cristo» (172). A Virgem e a Igreja 53. Efectivamente, a Virgem Maria, que na anunciação do Anjo recebeu o Verbo no coração e no seio, e deu ao mundo a Vida, é reconhecida e honrada como verdadeira Mãe de Deus Redentor. Remida dum modo mais sublime, em atenção aos méritos de seu Filho, e unida a Ele por um vínculo estreito e indissolúvel, foi enriquecida com a excelsa missão e dignidade de Mãe de Deus Filho; é, por isso, filha predilecta do Pai e templo do Espírito Santo, e, por este insigne dom da graça, leva vantagem á todas as demais criaturas do céu e da terra. Está, porém, associada, na descendência de Adão, a todos os homens necessitados de salvação; melhor, «é verdadeiramente Mãe dos membros (de Cristo)…, porque cooperou com o seu amor para que na Igreja nascessem os fiéis, membros daquela cabeça» (173). É, por esta razão, saudada como membro eminente e inteiramente singular da Igreja, seu tipo e exemplar perfeitíssimo na fé e na caridade; e a Igreja católica, ensinada pelo Espírito Santo, consagra-lhe, como a mãe amantíssima, filial afecto de piedade. Intenção do Concílio 54. Por isso, o sagrado Concílio, ao expor a doutrina acerca da Igreja, na qual o divino Redentor realiza a salvação, pretende esclarecer cuidadosamente não só o papel da Virgem Santíssima no mistério do Verbo encarnado e do Corpo místico, mas também os deveres dos homens resgatados para com a Mãe de Deus, Mãe de Cristo e Mãe dos homens, sobretudo dos fiéis. Não tem, contudo, intenção de propor toda a doutrina acerca de Maria, nem de dirimir as questões ainda não totalmente esclarecidas pelos teólogos. Conservam, por isso, os seus direitos as opiniões que nas escolas católicas livremente se propõem acerca daquela que na santa Igreja ocupa depois de Cristo o lugar mais elevado e também o mais próximo de nós (174). II. A VIRGEM SANTÍSSIMA NA ECONOMIA DA SALVAÇÃO A mãe do Redentor no Antigo Testamento 55. A Sagrada Escritura do Antigo e Novo Testamento e a venerável Tradição mostram de modo progressivamente mais claro e como que nos põem diante dos olhos o papel da Mãe do Salvador na economia da salvação. Os livros do Antigo Testamento descrevem a história da salvação na qual se vai preparando lentamente a vinda de Cristo ao mundo. Esses antigos documentos, tais como são lidos na Igreja e interpretados à luz da plena revelação ulterior, vão pondo cada vez mais em evidência a figura duma mulher, a Mãe do Redentor. A esta luz, Maria encontra-se já profeticamente delineada na promessa da vitória sobre a serpente (cfr. Gén. 3,15), feita aos primeiros pais caídos no pecado. Ela é, igualmente, a Virgem que conceberá e dará à luz um Filho, cujo nome será Emmanuel (cfr. Is. 7,14; cfr. Miq. 5, 2-3; Mt. 1, 22-23). É a primeira entre os humildes e pobres do Senhor, que confiadamente esperam e recebem a salvação de Deus. Com ela, enfim, excelsa Filha de Sião, passada a longa espera da promessa, se cumprem os tempos e se inaugura a nova economia da salvação, quando o Filho de Deus dela recebeu a natureza humana, para libertar o homem do pecado com os mistérios da Sua vida terrena. Maria na Anunciação 56. Mas o Pai das misericórdias quis que a aceitação, por parte da que Ele predestinara para mãe, precedesse a encarnação, para que, assim como uma mulher contribuiu para a morte, também outra mulher contribuisse para a vida. É o que se verifica de modo sublime na Mãe de Jesus, dando à luz do mundo a própria Vida, que tudo renova. Deus adornou-a com dons dignos de uma tão grande missão; e, por isso, não é de admirar que os santos Padres chamem com frequência à Mãe de Deus «toda santa» e «imune de toda a mancha de pecado», visto que o próprio Espírito Santo a modelou e d’Ela fez uma nova criatura (175). Enriquecida, desde o primeiro instante da sua conceição, com os esplendores duma santidade singular, a Virgem de Nazaré é saudada pelo Anjo, da parte de Deus, como «cheia de graça» (cfr. Luc. 1,28); e responde ao mensageiro celeste: «eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Luc. 1,38). Deste modo, Maria, filha de Adão, dando o seu consentimento à palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus e, não retida por qualquer pecado, abraçou de todo o coração o desígnio salvador de Deus, consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra de seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus omnipotente o mistério da Redenção. por isso, consideram com razão os santos Padres que Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens. Como diz S. Ireneu, «obedecendo, ela tornou-se causa de salvação, para si e para todo o género humano» (176). Eis porque não poucos, Padres afirmam com ele, nas suas pregações, que «o no da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; e aquilo que a virgem Eva atou, com a sua incredulidade, desatou-o a virgem Maria com a sua fé» (177); e, por comparação com Eva, chamam Maria a «mãe dos vivos»(178) e afirmam muitas vezes: «a morte veio por Eva, a vida veio por Maria» (179). Maria na infância de Jesus 57. Esta associação da mãe com o Filho na obra da salvação, manifesta-se desde a conceição virginal de Cristo até à Sua morte. Primeiro, quando Maria, tendo partido solicitamente para visitar Isabel, foi por ela chamada bem-aventurada, por causa da fé com que acreditara na salvação prometida, e o precursor exultou no seio de sua mãe (cfr. Luc. 1, 41-45); depois, no nascimento, quando a Mãe de Deus, cheia de alegria, apresentou aos pastores e aos magos o seu Filho primogénito, o qual não só não lesou a sua integridade, mas antes a consagrou (180). E quando O apresentou no templo ao Senhor, com a oferta dos pobres, ouviu Simeão profetizar que o Filho viria a ser sinal de contradição e que uma espada trespassaria o coração da mãe, a fim de se revelarem os pensamentos de muitos (cfr. Luc. 2, 34-35). Ao Menino Jesus, perdido e buscado com aflição, encontraram-n’O os pais no templo, ocupado nas coisas de Seu Pai; e não compreenderam o que lhes disse. Mas sua mãe conservava todas estas coisas no coração e nelas meditava (cfr. Luc. 2, 41-51). Maria na vida pública e na paixão de Cristo 58. Na vida pública de Jesus, Sua mãe aparece duma maneira bem marcada logo no princípio, quando, nas bodas de Caná, movida de compaixão, levou Jesus Messias a dar início aos Seus milagres. Durante a pregação de Seu Filho, acolheu as palavras com que Ele, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (cfr. Mc. 3,35 e paral.; Luc. 11, 27-28); coisa que ela fazia fielmente (cfr. Luc. 2, 19 e 51). Assim avançou a Virgem pelo caminho da fé, mantendo fielmente a. união com seu Filho até à cruz. Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (cfr. Jo.19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera; finalmente, Jesus Cristo, agonizante na cruz, deu-a por mãe ao discípulo, com estas palavras: mulher, eis aí o teu filho (cfr. Jo. 19, 26-27) (181). Maria depois da Ascensão 59. Tendo sido do agrado de Deus não manifestar solenemente o mistério da salvação humana antes que viesse o Espírito prometido por Cristo, vemos que, antes do dia de Pentecostes, os Apóstolos «perseveravam unânimemente em oração, com as mulheres, Maria Mãe de Jesus e Seus irmãos» (Act. 1,14), implorando Maria, com as suas orações, o dom daquele Espírito, que já sobre si descera na anunciação. Finalmente, a Virgem Imaculada, preservada imune de toda a mancha da culpa original (198), terminado o curso da vida terrena, foi elevada ao céu em corpo e alma (183) e exaltada por Deus como rainha, para assim se conformar mais plenamente com seu Filho, Senhor dos senhores (cfr. Apoc. 19,16) e vencedor do pecado e da morte (184). III. A VIRGEM SANTÍSSIMA E A IGREJA O influxo salutar de Maria e a mediação de Cristo 60. O nosso mediador é só um, segundo a palavra do Apóstolo: «não há senão um Deus e um mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que Se entregou a Si mesmo para redenção de todos (1 Tim. 2, 5-6). Mas a função maternal de Maria em relação aos homens de modo algum ofusca ou diminui esta única mediação de Cristo; manifesta antes a sua eficácia. Com efeito, todo o influxo salvador da Virgem Santíssima sobre os homens se deve ao beneplácito divino e não a qualquer necessidade; deriva da abundância dos méritos de Cristo, funda-se na Sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí toda a sua eficácia; de modo nenhum impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece. A maternidade espiritual 61. A Virgem Santíssima, predestinada para Mãe de Deus desde toda a eternidade simultâneamente com a encarnação do Verbo, por disposição da divina Providência foi na terra a nobre Mãe do divino Redentor, a Sua mais generosa cooperadora e a escrava humilde do Senhor. Concebendo, gerando e alimentando a Cristo, apresentando-O ao Pai no templo, padecendo com Ele quando agonizava na cruz, cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É por esta razão nossa mãe na ordem da graça. A natureza da sua mediação 62. Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura sem interrupção, desde o consentimento, que fielmente deu na anunciação e que manteve inabalável junto à cruz, até à consumação eterna de todos os eleitos. De facto, depois de elevada ao céu, não abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna (185). Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada. Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro, medianeira (186). Mas isto entende-se de maneira que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia do único mediador, que é Cristo (187). Efectivamente, nenhuma criatura se pode equiparar ao Verbo encarnado e Redentor; mas, assim como o sacerdócio de Cristo é participado de diversos modos pelos ministros e pelo povo fiel, e assim como a bondade de Deus, sendo uma só, se difunde vàriamente pelos seres criados, assim também a mediação única do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas cooperações diversas, que participam dessa única fonte. Esta função subordinada de Maria, não hesita a Igreja em proclamá-la; sente-a constantemente e inculca-a aos fiéis, para mais intimamente aderirem, com esta ajuda materna, ao seu mediador e salvador. Maria tipo da Igreja como Virgem e Mãe 63. Pelo dom e missão da maternidade divina, que a une a seu Filho Redentor, e pelas suas singulares graças e funções, está também a Virgem intimamente ligada, à Igreja: a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo, como já ensinava S. Ambrósio (188). Com efeito, no mistério da Igreja, a qual é também com razão chamada mãe e virgem, a bem-aventurada Virgem Maria foi adiante, como modelo eminente e único de virgem e de mãe (189). Porque, acreditando e obedecendo, gerou na terra, sem ter conhecido varão, por obra e graça do Espírito Santo, o Filho do eterno Pai; nova Eva, que acreditou sem a mais leve sombra de dúvida, não na serpente antiga, mas no mensageiro celeste. E deu à luz um Filho, que Deus estabeleceu primogénito de muitos irmãos (Rom. 8,29), isto é, dos fiéis, para cuja geração e educação Ela coopera com amor de mãe. A fecundidade virginal da Igreja 64. Por sua vez, a Igreja que contempla a sua santidade misteriosa e imita a sua caridade, cumprindo fielmente a vontade do Pai, toma-se também, ela própria, mãe, pela fiel recepção da palavra de Deus: efectivamente, pela pregação e pelo Baptismo, gera, para vida nova e imortal, os filhos concebidos por acção do Espírito Santo e nascidos de Deus. E também ela é virgem, pois guarda fidelidade total e pura ao seu Esposo e conserva virginalmente, à imitação da Mãe do seu Senhor e por virtude do Espírito Santo, uma fé íntegra, uma sólida esperança e uma verdadeira caridade (190). Virtudes de Maria 65. Mas, ao passo que, na Santíssima Virgem, a Igreja alcançou já aquela perfeição sem mancha nem ruga que lhe é própria (cfr. Ef. 5,27), os fiéis ainda têm de trabalhar por vencer o pecado e crescer na santidade; e por isso levantam os olhos para Maria, que brilha como modelo de virtudes sobre toda a família dos eleitos. A Igreja, meditando piedosamente na Virgem, e contemplando-a à luz do Verbo feito homem, penetra mais profundamente, cheia de respeito, no insondável mistério da Encarnação, e mais e mais se conforma com o seu Esposo. Pois Maria, que entrou intimamente na história da salvação, e, por assim dizer, reune em si e reflecte os imperativos mais altos da nossa fé, ao ser exaltada e venerada, atrai os fiéis ao Filho, ao Seu sacrifício e ao amor do Pai. Por sua parte, a Igreja, procurando a glória de Cristo, torna-se mais semelhante àquela que é seu tipo e sublime figura, progredindo continuamente na fé, na esperança e na caridade, e buscando e fazendo em tudo a vontade divina. Daqui vem igualmente que, na sua acção apostólica, a Igreja olha com razão para aquela que gerou a Cristo, o qual foi concebido por acção do Espírito Santo e nasceu da Virgem precisamente para nascer e crescer também no coração dos fiéis, por meio da Igreja. E, na sua vida, deu a Virgem exemplo daquele afecto maternal de que devem estar animados todos quantos cooperam na missão apostólica que a Igreja tem de regenerar os homens. IV. O CULTO DA BEM-AVENTURADA VIRGEM NA IGREJA Natureza e fundamento do culto 66. Exaltada por graça do Senhor e colocada, logo a seguir a seu Filho, acima de todos os anjos e homens, Maria que, como mãe santíssima de Deus, tomou parte nos mistérios de Cristo, é com razão venerada pela Igreja com culto especial. E, na verdade, a Santíssima Virgem é, desde os tempos mais antigos, honrada com o título de «Mãe de Deus», e sob a sua protecção se acolhem os fiéis, em todos os perigos e necessidades (191). Foi sobretudo a partir do Concílio do Éfeso que o culto do Povo de Deus para com Maria cresceu admiràvelmente, na veneração e no amor, na invocação e na imitação, segundo as suas proféticas palavras: «Todas as gerações me proclamarão bem-aventurada, porque realizou em mim grandes coisas Aquele que é poderoso» (Luc.1,48). Este culto, tal como sempre existiu na Igreja, embora inteiramente singular, difere essencialmente do culto de adoração, que se presta por igual ao Verbo encarnado, ao Pai e ao Espírito Santo, e favorece-o poderosamente. Na verdade, as várias formas de piedade para com a Mãe de Deus, aprovadas pela Igreja, dentro dos limites de sã e recta doutrina, segundo os diversos tempos e lugares e de acordo com a índole e modo de ser dos fiéis, têm a virtude de fazer com que, honrando a mãe, melhor se conheça, ame e gloria fique o Filho, por quem tudo existe (cfr. Col. 1, 15-16) e no qual «aprouve a Deus que residisse toda a plenitude» (Col. 1,19), e também melhor se cumpram os seus mandamentos. Espírito da pregação e do culto 67. Muito de caso pensado ensina o sagrado Concílio esta doutrina católica, e ao mesmo tempo recomenda a todas os filhos da Igreja que fomentem generosamente o culto da Santíssima Virgem, sobretudo o culto litúrgico, que tenham em grande estima as práticas e exercícios de piedade para com Ela, aprovados no decorrer dos séculos pelo magistério, e que mantenham fielmente tudo aquilo que no passado foi decretado acerca do culto das imagens de Cristo, da Virgem e dos santos (192). Aos teólogos e pregadores da palavra de Deus, exorta-os instantemente a evitarem com cuidado, tanto um falso exagero como uma demasiada estreiteza na consideração da dignidade singular da Mãe de Deus (193). Estudando, sob a orientação do magistério, a Sagrada Escritura, os santos Padres e Doutores, e as liturgias das Igrejas, expliquem como convém as funções e os privilégios da Santíssima Virgem, os quais dizem todos respeito a Cristo, origem de toda a verdade, santidade e piedade. Evitem com cuidado, nas palavras e atitudes, tudo o que possa induzir em erro acerca da autêntica doutrina da Igreja os irmãos separados ou quaisquer outros. E os fiéis lembrem-se de que a verdadeira devoção não consiste numa emoção estéril e passageira, mas nasce da fé, que nos faz reconhecer a grandeza da Mãe de Deus e nos incita a amar filialmente a nossa mãe e a imitar as suas virtudes. V. MARIA, SINAL DE SEGURA ESPERANÇA E DE CONSOLAÇÃO PARA O POVO DE DEUS PEREGRINANTE Sinal de Esperança e de consolação 68. Entretanto, a Mãe de Jesus, assim como, glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que se há-de consumar no século futuro, assim também, na terra, brilha como sinal de esperança segura e de consolação, para o Povo de Deus ainda peregrinante, até que chegue o dia do Senhor (cfr. 2 Ped. 3,10). Medianeira para a unidade da Igreja 69. E é uma grande alegria e consolação para este sagrado Concílio o facto de não faltar entre os irmãos separados quem preste à Mãe do Senhor e Salvador o devido culto; sobretudo entre os Orientais, que acorrem com fervor e devoção a render culto à sempre Virgem Mãe de Deus (194). Dirijam todos os fiéis instantes súplicas à Mãe de Deus e mãe dos homens, para que Ela, que assistiu com suas orações aos começos da Igreja, também agora, exaltada sobre todos os anjos e bem-aventurados, interceda, junto de seu Filho, na comunhão de todos os santos, até que todos os povos, tanto os que ostentam o nome cristão, como os que ainda ignoram o Salvador, se reunam felizmente, em paz e harmonia, no único Povo de Deus, para glória da santíssima e indivisa Trindade. Roma, 21 de Novembro de 1964. PAPA PAULO VI

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Maria sempre virgem.

A Igreja tem constantemente manifestado a própria fé na virgindade perpétua de Maria. Os textos mais antigos, quando se referem à concepção de Jesus, chamam Maria simplesmente “Virgem”, deixando contudo entender que consideravam essa qualidade como um fato permanente, referido à sua vida inteira.

Os cristãos dos primeiros séculos expressaram essa convicção de fé mediante o termo grego aeiparthenos – “sempre virgem” – criado para qualificar de modo singular e eficaz a pessoa de Maria, e exprimir numa só palavra a fé da Igreja na sua virgindade perpétua. Encontramo-lo usado no segundo símbolo de fé de Santo Epifânio, no ano 374, em relação à Encarnação: o Filho de Deus “encarnou-Se, isto é, foi gerado de modo perfeito pela Santa Maria, a sempre Virgem, por obra do Espírito Santo” (Ancoratus, 119,5; DS 44).

A expressão “sempre Virgem” é retomada pelo II Concílio de Constantinopla (553), que afirma: o Verbo de Deus, “tendo-Se encarnado da santa gloriosa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, nasceu dela” (DS 422). Esta doutrina é confirmada por outros dois Concílios Ecumênicos: o Lateranense IV (1215) (DS 801) e o Concílio de Lião (1274) (DS 852), e pelo texto da definição do dogma da assunção (1950) (DS 3903), no qual a virgindade perpétua de Maria é adotada entre os motivos da sua elevação, em corpo e alma, à glória celeste.

Mediante uma fórmula sintética, a tradição da Igreja apresentou Maria como “virgem antes do parto, no parto, e depois do parto”, reafirmando, através da indicação destes três momentos, que ela jamais cessou de ser virgem. Das três, a afirmação da virgindade “antes do parto”, é, sem dúvida, a mais importante, porque se refere à concepção de Jesus e toca diretamente o próprio mistério da Encarnação. Desde o início ela está constantemente presente na fé da Igreja.

A virgindade “no parto” e “depois do parto”, embora contida implicitamente no título de virgem, atribuído a Maria já nos primórdios da Igreja, torna-se objeto de aprofundamento doutrinal no momento em que alguns começam implicitamente a pô-la em dúvida. O Papa Ormisdas esclarece que “o Filho de Deus Se tornou filho do homem, nascido no tempo como um homem, abrindo no nascimento o seio da Mãe (cf. Lc 2, 23) e, pelo poder de Deus, não destruindo a virgindade da Mãe” (DS 368). A doutrina é confirmada pelo Concílio Vaticano II, no qual se afirma que o Filho primogênito de Maria “não só não lesou a sua integridade virginal, mas antes a consagrou” (LG 57). Quanto à virgindade depois do parto, deve-se antes de tudo observar que não há motivos para pensar que a vontade de permanecer virgem, manifestada por Maria no momento da Anunciação (Lc 1,34), tenha sucessivamente mudado. Além disso, o sentido imediato das palavras: “Mulher, eis aí o teu filho”, “Eis aí a tua Mãe” (Jo 19,26-27), que Jesus da cruz dirige a Maria e ao discípulo predileto, faz supor uma situação que exclui a presença de outros filhos nascidos de Maria. Os negadores da virgindade depois do parto pensaram encontrar um argumento comprovante no termo “primogênito”, atribuído a Jesus no Evangelho (Lc 2,7), como se essa locução deixasse supor que Maria tenha gerado outros filhos depois de Jesus. Mas a palavra “primogênito” significa literalmente “Filho não precedido por outro” e, em si, prescinde da existência de outros filhos. Além disso, o evangelista ressalta esta característica do Menino, pois ao nascimento do primogênito estavam ligadas algumas importantes observâncias próprias da lei judaica, independentemente do fato que a Mãe tivesse dado à luz outros filhos. Todo o filho único estava, pois, sob essas prescrições porque “o primeiro a ser gerado” (cf. Lc 2,23).

Segundo alguns, a virgindade de Maria depois do parto seria negada por aqueles textos evangélicos que recordam a existência de quatro “irmãos de Jesus”: Tiago, José, Simão e Judas (Mt 13, 55-56; Mc 6,3), e de suas diversas irmãs. É preciso recordar que, tanto em hebraico como em aramaico, não existe um vocábulo particular para exprimir a palavra “primo” e que, portanto, os termos “irmão” e “irmã” tinham um significado muito amplo, que abrangia diversos graus de parentesco. Na realidade com o termo “irmãos de Jesus” são indicados “os filhos duma Maria discípula de Cristo” (cf. Mt 27,56), designada de modo significativo como a “outra Maria” (Mt 28,1). Trata-se de parentes próximos de Jesus, segundo uma expressão conhecida do Antigo Testamento” (Catecismo da Igreja Católica, n. 500).

Maria Santíssima é, pois, a “sempre Virgem”. Esta sua prerrogativa é a consequência da maternidade divina, que a consagrou totalmente à missão redentora de Cristo.

por
DO Livro: A VIRGEM MARIA “58 CATEQUESES DO PAPA JOÃO PAULO II”

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A Ave-Maria é uma oração Bíblica ?

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Sim e Não. Sim, trata-se de uma oração bíblica. Não, não do jeito literal, copiado exatamente como conhecemos e no formato de oração.  Seria melhor dizer que tal oração possui profundas raízes nos textos sacros. E estudá-la, ainda que rapidamente, nos permite ter uma pequena lição mariológica, mas essencialmente importante.

            Verificaremos isto, analisando atentamente as frases da reza, ligando-as com trechos bíblicos, comprovando suas verdades que autenticam a mesma.

AVE MARIA, CHEIA DE GRAÇA, O SENHOR É CONVOSCO,

A frase é literalmente copiada das palavras do Arcanjo Gabriel, mensageiro de Deus, em Lc 1,28.

BENDITA SOIS VÓS ENTRE AS MULHERES, BENDITO É O FRUTO DO VOSSO VENTRE, JESUS.

A frase é literalmente copiada das palavras de Isabel, inspirada por Deus, em Lc 1,42

SANTA MARIA,

Em Lc 1,48 Maria exclama, inspirada por Deus, que todas as gerações a proclamarão SANTA, FELIZ, BEM-AVENTURADA. É exatamente o que se faz quando se diz “SANTA MARIA”.

MÃE DE DEUS,

EM Lc 1,43; Isabel, inspirada por Deus, diz que Maria é mãe do Senhor. Como Maria gerou o corpo deste Senhor (Jesus, Deus Filho), sua maternidade biológica e de criação é autenticada por este maravilhoso versículo.

ROGAI POR NÓS PECADORES, AGORA E NA HORA DA NOSSA MORTE, AMEM.

Trata-se de um pedido de intercessão dos cristãos a sua mãe. E a intercessão de Maria antecipou os milagres de Jesus, como sabemos nas bodas de Caná, em Jo 2,1-11. Maria intercede para que Jesus transforme água em vinho na festa de casamento. Mesmo não sendo sua hora de começar a manifestar seu poder divino, Jesus atende o pedido de sua Mãe. Primeira intercessão de Maria a Jesus.

           A parte de “Santa Maria” em diante é uma invocação da Igreja, totalmente enraizada nas passagens bíblicas acima evidenciadas. Foi necessário um milênio, do séc. VI ao XVI para que se chegasse a fixação atual desta bela oração, que só através do Papa Pio V, em 1568 foi confirmada como a conhecemos nos dias atuais.

Um último dado muito interessante: o nome de Jesus aparece bem no meio da Ave Maria.  João Paulo II chamou atenção sobre este fato em sua recente carta sobre o Rosário:

O baricentro da Ave Maria, uma espécie de charneira entre a primeira parte e a segunda, é o nome de Jesus. Às vezes, na recitação precipitada, perde-se tal baricentro e, com ele, também a ligação ao mistério de Jesus que se está a contemplar. Ora, é precisamente pela acentuação dada ao nome de Jesus e ao seu mistério que se caracteriza a recitação expressiva e frutuosa do Rosário. Já Paulo VI recordou na Exortação apostólica Marialis cultus o costume, existente nalgumas regiões, de dar realce ao nome de Cristo acrescentando-lhe uma cláusula evocativa do mistério que se está a meditar. É um louvável costume, sobretudo na recitação pública. Exprime de forma intensa a fé cristológica, aplicada aos diversos momentos da vida do Redentor. É profissão de fé e, ao mesmo tempo, um auxílio para permanecer em meditação, permitindo dar vida à função assimiladora, contida na repetição da ave Maria, relativamente ao mistério de Cristo. Repetir o nome de Jesus – o único nome do qual se pode esperar a salvação (cf. Act 4, 12) – enlaçado com o da Mãe Santíssima, e de certo modo deixando que seja Ela própria a sugerir-no-lo, constitui um caminho de assimilação que quer fazer-nos penetrar cada vez mais profundamente na vida de Cristo. “ ( Rosarium Virgis Mariae, nº 33)

            O nome de Jesus tem poder. Não devemos pronunciá-lo de qualquer maneira.  Significa Deus Salvador.  Quando pronunciamos este nome, estamos pedindo a Deus que realize em nós o seu significado: a salvação eterna! É uma pena que existam pessoas que denigrem a Ave Maria, mal sabendo o seu maravilhoso significado e sua importância espiritual.
             A PAZ DE CRISTO E O AMOR DE MARIA!

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A Origem do Terço Mariano

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A palavra ROSÁRIO quer dizer coroa de rosas. Antes do Cristianismo, os pagãos coroavam de rosas suas estátuas, como símbolo de sua devoção. Os cristãos primitivos substituíram as rosas por orações. Na Idade Média, os ascetas recitavam, integralmente, os 150 salmos de Davi. Para aqueles que não sabiam ler e para os leigos, correspondiam a 150 Pai-Nosso que foram substituídos pela primeira parte da saudação que o anjo Gabriel fez à Maria: “Ave Maria, cheia de graça. O senhor é contigo. Bendita és tu entre as mulheres e Bendito é o fruto de teu ventre“.

Assim se formou o Saltério de Maria, cuja recitação era acompanhada de genuflexões ou prostrações. A meditação dos mistérios, como conhecemos hoje, é posterior, possivelmente iniciado por um religioso de Tréveros, Domingos da Prússia, na primeira metade do século XV.


Deve-se a Ordem Dominicana o desenvolvimento da Devoção ao Santo Rosário que os Papas, em particular Leão XIII, não só recomendavam esta prática como a enriqueceram de grandes indulgências. O Papa João Paulo II acrescentou, em outubro de 2002, os Mistérios Luminosos, instituindo o ano do Rosário, de outubro de 2002 a outubro de 2003.

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O Rosário

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A meditação dos mistérios de Cristo é proposta no Rosário com um método característico, apropriado por sua natureza para favorecer a assimilação dos mesmos. É o método baseado na repetição. Isto é visível sobretudo com a Ave Maria, repetida dez vezes em cada mistério.

Considerando superficialmente uma tal repetição, pode-se ser tentado a ver o Rosário como uma prática árida e aborrecida. Chega-se, porém, a uma idéia muito diferente, quando se considera o Terço como expressão daquele amor que não se cansa de voltar à pessoa amada com efusões que, apesar de semelhantes na sua manifestação, são sempre novas pelo sentimento que as permeia.

Em Cristo, Deus assumiu verdadeiramente um «coração de carne». Não tem apenas um coração divino, rico de misericórdia e perdão, mas também um coração humano, capaz de todas as vibrações de afeto.

Se houvesse necessidade de um testemunho evangélico disto mesmo, não seria difícil encontrá-lo no diálogo comovente de Cristo com Pedro depois da ressurreição: “Simão, filho de João, tu amas-Me?” Por três vezes é feita a pergunta, e três vezes recebe como resposta: “Senhor, Tu sabes que Te amo” (cf. Jo 21, 15-17). Além do significado específico do texto, tão importante para a missão de Pedro, não passa despercebida a ninguém a beleza desta tríplice repetição, na qual a solicitação insistente e a respectiva resposta são expressas com termos bem conhecidos da experiência universal do amor humano. Para compreender o Rosário, é preciso entrar na dinâmica psicológica típica do amor.

Uma coisa é clara! Se a repetição da Ave Maria se dirige diretamente a Maria, com Ela e por Ela é para Jesus que, em última análise, vai o ato de amor. A repetição alimenta-se do desejo de uma conformação cada vez mais plena Cristo, verdadeiro “programa” da vida cristã.

São Paulo enunciou este programa com palavras cheias de ardor: “Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Flp 1, 21). E ainda: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20). O Rosário ajuda-nos a crescer nesta conformação até à meta da santidade.
Um método válido…
Não deve maravilhar-nos o fato de a relação com Cristo se servir também do auxílio dum método. Deus comunica-Se ao homem, respeitando o modo de ser da nossa natureza e os seus ritmos vitais.

Por isso a espiritualidade cristã, embora conhecendo as formas mais sublimes do silêncio místico onde todas as imagens, palavras e gestos ficam superados pela intensidade de uma inefável união do homem com Deus, normalmente passa pelo envolvimento total da pessoa, na sua complexa realidade psico-física e relacional.


Papa João Paulo II (2002)
(Trecho da Carta Apostólica “O Rosário da Virgem Maria”)
 

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