Via sacra do Amor Esponsal

Maria Emmir Oquendo Nogueira (Co-fundadora da Comunidade Católica Shalom)

(Baseada no Escrito “Amor Esponsal” da Comunidade Católica Shalom)

Ressuscitou

PRIMEIRA ESTAÇÃO

JESUS É CONDENADO À MORTE

a paixao de cristo -  gibson - com pilatos

V. Nós te adoramos, Amado Nosso, e te bendizemos.

R. Porque por tua santa cruz remiste o mundo e nos ensinaste a medida do amor.

Do Evangelho de S. Marcos, 15, 14-15

Eles gritaram ainda mais: “Crucifica-O!” Pilatos, decidido a satisfazer a multidão, soltou-lhes Barrabás e, quanto a Jesus, o entregou para que o açoitassem e o crucificassem.

Meditação

No meio da multidão, Esposo meu, olho, ansioso, o teu rosto. Quando ouves “Barrabás” sabes que serás crucificado. No entanto, mesmo à distância, vejo em teus olhos a esperança de poder dar-lhe uma segunda chance. A chance do Novo Testamento. Tu sabes bem, Jesus, que Barrabás, assim como eu, é vaso de argila. Está dentre os menores, os piores, os miseráveis. Nos desígnios de Misericórdia, o Pai, de forma incompreensível, te troca pelo pior dos malfeitores. Misteriosamente, Barrabás recebe a tua entrega total por ele em forma de segunda chance. Ele não sabe o que se passa. Não consegue medir, nem imaginar. Eu, sim. E, em minha miséria, uno-me a ele, Deus de minha vida, eu, o menor, o pior, e acolho a Ti, dado em troca de mim. Acolho-te todo, sem nada deixar de acolher e, ao acolher-te, entrego-me todo a Ti. Tu, tomas sobre ti todo o meu pecado e todo o meu ser, dado em troca pelo Teu. Por isso, ainda que eu não abra a boca, perdido na multidão, por causa do mistério escondido nesta troca, grito também: “Crucifica-O!”

Aclamações

V. Jesus, Esposo Meu, livremente entregue à cruz em meu lugar,

R. Tem piedade de mim e ensina-me a entregar-me livremente pelos miseráveis.

V. Jesus, Esposo Meu, trocado pelos menores, pelos piores,

R. Tem piedade de mim e ensina-me a me dar por eles.

V. Venha teu Reinado,

R. Cumpra-se teu desígnio na terra como no céu.

Pai Nosso

SEGUNDA ESTAÇÃO

JESUS É CARREGADO COM A CRUZ

20040216-paixao_cristo-03

V. Nós te adoramos, Amado nosso, e te bendizemos

R. Porque por tua santa cruz remistes o mundo

Do Evangelho de São Marcos, 15,20

Depois de o terem escarnecido, tiraram-lhe o manto de púrpura e vestiram-Lhe as suas roupas. Levaram-no, então, para O crucificarem.

Meditação

“O Amor não é amado!” Com São Francisco, Amado meu, meu coração reconhece que, das mais diversas formas te escarneceu, cuspiu-te na Face, enterrou-te a coroa com pancadas surdas. Oh, meu Deus, não te amei! Esqueci de onde me tiraste, esqueci que me escolheste e, envolto no dia a dia, escarneci de Ti, ignorei a Tua vontade que é sempre amor. Perdoa-me, Deus de minha vida. Perdoa-me! Deixa-me lavar teu sangue com minhas lágrimas. Deixa-me ungi-lo com meu arrependimento, mais uma vez, mais uma vez! Ah, Senhor, o quanto deves me amar para perdoar-me tantas vezes! Inflamo-me de gratidão por me amares tanto apesar de tantos escárnios de minha parte. Vejo-te a caminhar para a cruz, pronto a amar sempre mais e mais. Uno-me a esta cruz, que acende o teu amor. E Tu, loucamente, te unes a mim, cuja ingratidão constante só te leva a amar mais.

Aclamações

V. Jesus Cristo, Amor do Pai Inflamado,

R. Tem piedade de mim, cujo pecado inflama teu amor!

V. Jesus Cristo, Amor que não é amado,

R. Tem piedade de mim, que me amo tanto, e me leva a amar sempre mais e mais

V. Perdoa-nos nossas ofensas,

R. Como nós também perdoamos aos que nos ofendem.

Pai Nosso

TERCEIRA ESTAÇÃO

JESUS CAI PELA PRIMEIRA VEZ

V. Nós te adoramos, Amado Nosso, e Te bendizemos,

R. Porque por Tua santa cruz remiste o mundo.

Do livro do profeta Isaías 53,4-6

Na verdade, ele suportou nossos sofrimentos e carregou nossas dores, nós o tivemos como um contagiado, ferido de Deus e afligido. Ele, ao contrário, foi trespassado por causa de nossas rebeliões, triturado por causa de nossos crimes. Sobre ele descarregou o castigo que nos cura, e com suas cicatrizes nos curamos. Todos nós andávamos perdidos como ovelhas, cada um para seu lado, e o Senhor fez cair sobre ele todos os nossos crimes.

Meditação

Vejo-te, Amado meu, por terra. Caído. Um cordeiro, um cordeirinho sangrando, caído sob a cruz. Quero socorrer-te. Não me deixam! Quero rebelar-me, gritar diante de tamanha injustiça. Não me deixas! Guardo, compungido, meu grito. Uno-me a ti em tua queda. Entendo, vendo-te assim, que santo não é quem não cai, mas quem confia inteiramente na misericórdia do Pai, como tu fazes agora. Olho ao meu redor, atingido pelos gritos de ódio. Misteriosamente, eles passam por mim, mas não me atingem. Atingem a ti, pois por recebê-los estás contagiado, ferido, afligido. Os chicotes não te deixam. Nem te deixam as nossas quedas. Volto a olhar ao meu redor e, agora, entendo: também eu devo deixar-me contagiar, acolher e afligir-me – ferido – os vários gritos de ódio dos não-amáveis.

Aclamações

V. Amado, Cordeiro de Deus, silencioso e caído, inteiramente abandonado ao Pai,

R. Tem piedade de mim que não admito cair e nem sempre confio em tua misericórdia!

V. Cordeiro, Esposo, entregue totalmente às nossas mãos assassinas,

R. Tem piedade de mim e ensina-me a entregar-me, amorosamente, ao não-amável!

V. Não nos deixes, Pai, sucumbir à prova,

R. E livra-nos do Maligno.

Pai Nosso

QUARTA ESTAÇÃO

JESUS ENCONTRA SUA MÃE

Maria encontra-se com  Jesus

V. Nós te adoramos, Filho, e te bendizemos,

R. Porque por tua santa cruz remiste o mundo.

Do Evangelho de São Lucas 2, 34-35,51

Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe: “Vê: Este está posto de forma que todos em Israel ou caiam ou se levantarem; será uma bandeira disputada, e assim ficarão evidentes os pensamentos de todos. Quanto a ti, uma espada te atravessará. Desceu com eles, foi a Nazaré e continuou sob sua autoridade. Sua mãe guardava tudo isso em seu íntimo.

Meditação

Tu e eu a vemos, Filho, e, nela, Tu e eu nos encontramos. Não é só a Mãe que encontras. É na Mãe que, mais uma vez, te encontras, em Tua humanidade bendita. Vejo, no Teu olhar a ela o mesmo que no dela a ti: “Deus! Só Deus! O Pai! Só o Pai! A vontade do Pai! Fiat! Fiat!” Nenhum dos dois pensa em si. Ambos só vêm o Esposo, o Pai, a Santa Vontade do Pai, o Amor do Pai, o amor ao Pai. Bebo, ávido, até a última gota das lágrimas de alegria deste olhar. Há dor, mas é dor de amor. E dor de amor, Amado – me ensinaste! – é alegria. É ressurreição. Tira, Deus de minha vida, meus olhos de mim mesmo, e, por esta santa troca de olhares, inflama-me para que eu busque cada vez mais o esquecimento de mim, de minha própria vontade, de meus próprios interesses, de minha própria vida e que, cada vez mais inflamado de amor por ti busque somente a Ti, a vontade do Pai, os interesses Dele, a vida Dele, a obra Dele.

Aclamação

V. Jesus, Filho de Deus, Filho de Maria, a ela unido em eterno “Sim”

R. Tem piedade de mim e ensina-me a ser, como ela, sempre “sim”

V. Jesus, unido a Maria no amor ao Pai, que aos dois basta,

R. Ensina-me a buscar somente a Sua santa vontade e confiar que só Tu, Deus meu, me bastas.

V. Cumpra-se o teu desígnio,

R. Na terra como no céu.

Pai Nosso

QUINTA ESTAÇÃO

JESUS É AJUDADO PELO CIRENEU A LEVAR A CRUZ

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V. Nós te adoramos, Amado Humílimo, e te bendizemos,

R. Porque por tua cruz remiste o mundo

Do Evangelho de São Marcos, 15,21-22

Passava por ali, voltando do campo, certo Simão de Cirene (pai de Alexandre e Rufo), e forçaram-no a carregar a cruz. Conduziram-no al Gólgota (que significa Lugar da Caveira).

Meditação

Vejo o Cireneu, cansado depois de um dia de trabalho no campo, ser obrigado a ajudarte, Amado meu. Por que não me escolheram a mim, penso, em meu orgulho. Iria com o maior prazer, seria uma honra sem igual. Logo entendo o cuidado com que o Pai preparou este teu caminho. O Cireneu era mais um a quem querias beneficiar com a tua paixão. Primeiro, o malfeitor tinha uma segunda chance. Agora, o pai de família, cansado do trabalho do campo, com a idade que teria, talvez, o próprio José, teu pai adotivo. Também ele te ajudou. Terá o Pai pensado nele? Tê-lo-á recompensado salvando este Simão? Nele, Senhor meu, pedes a todas as famílias, a todos os pais e mães, que carreguem a Tua cruz, a bendita e feliz cruz de morrer para que seus filhos tenham vida, de se darem para que seus filhos, mesmo não tendo tudo, tenham a eles, sua presença, suas renúncias, seu amor. É belo ver-Te em Teu caminho de cruz, a tocar os casais, as famílias, a ensinar-lhes que também deles Te fizestes Esposo e também a eles chamas ao Amor Esponsal vivido no marido, na mulher, nos muitos filhos.

Aclamação

V. Humilde Amado, que te deixar ajudar por um cansado pai que vem do campo,

R. Tem piedade de mim que me fecho em minha auto-suficiência.

V. Jesus querido, que aprendeste o amor humano na família de Nazaré,

R. Tem piedade de mim e ensina-me a rezar, amar e servir em família.

V. Pai nosso do céu,

R. Seja respeitada a santidade do teu nome.

Pai Nosso

SEXTA ESTAÇÃO

A VERÔNICA LIMPA O ROSTO DE JESUS

V. Nós Te adoramos, Amado Único, e te bendizemos,

R. Porque por tua cruz remiste o mundo.

Do livro do profeta Isaías 53,2-3

Cresceu (…)sem presença nem beleza para atrair nossos olhsares, nem aspecto que nos cativasse. Desprezado e evitado pela gente, homem acostumado a sofrer, curtido na dor; ao vêlo cobriam o rosto; desprezado nos o tivemos por nada.

Meditação

Correu a Verônica entre a guarda. Enxugou-te o rosto, colheu o suor de exaustão; comprimiu o sangue do sacrifício, secou as lágrimas de tantas emoções. Não tinha filhos por quem chorar. Não tinha esposo, esta Verônica. Eras, naquele momento, seu Esposo, seu Filho, seu Tudo. Amava-te, isso lhe bastava. O que faria esta Verônica com o seu lenço, com o teu Rosto? Para minha surpresa, não o guardou ciosamente. Posso vê-la, ainda virgem, ainda sem filhos, ainda sem marido, com o mesmo lenço, a vestir os nus, a cobrir os que têm frio, a enchê-lo de pão para os que têm fome, a encharcá-lo de água para os que têm sede, a acenar trégua aos prisioneiros. Esperta como sempre, ungida de sua virgindade consagrada, escorrega por entre as estruturas para amar-Te onde quer que estejas. Entendeu, esta Verônica, que o amor ao irmão é maneira concreta de mostrarmos o quanto te amamos.

Aclamações

V. Jesus, que imprimes tua Face Santa em cada pessoa, em cada jovem,

R. Tem piedade de nós e ensina-nos a pureza e a modéstia, que preservam em nós a

tua santa imagem.

V. Amado Esposo, que chamas tantos a se consagrarem inteiramente a Ti,

R. Tem piedade de nós e ensina-nos a beleza de amar aqueles por quem destes a vida.

V. Pai do céu,

R. Dá-nos hoje o pão de cada dia.

Pai Nosso

SÉTIMA ESTAÇÃO

JESUS CAI PELA SEGUNDA VEZ

V. Nos te adoramos, Cordeiro Amado, e te bendizemos,

R. Porque por tua cruz remiste o mundo.

Do livro das Lamentações 3, 1-2.9.16:

Eu sou um homem que provou a dor sob a vara de sua cólera, porque ele me guiou e conduziu para as trevas e não para a luz; (…) fechou-me a passagem com pedras, retorceu minhas sendas (…) meus dentes rangem mordendo cascalhos, e me revolvo no pó.

Meditação

Novamente, Amado meu, te vejo no chão! Sobrecarregado por meus pecados, conduzido para as trevas, tu que és a Luz. Acolhes minha escuridão para que eu tenha a Luz. Minhas trevas, porém, com a de todos os outros de todos os tempos, sugam o brilho de tua humanidade. Cais sob o meu peso. Ergo-me sobre teu esmagamento. Olho-te: o suor não consegue remoer o sangue que secou sobre tua pele. Os primeiros escarros, já secos, mantêm grudados entre si os fios de tua barba. Os escarros recentes formam grandes gotas esverdeadas que insistem em não cair. Reconheço longinquamente teus olhos por entre as pálpebras inchadas. Os muitos cortes, abertos, já não sangram tanto; escondem-se sob sangue coalhado e salmoura. O cheiro de sangue fresco mistura-se com o de sangue velho e suor. Doume conta, Senhor meu, que tu fedes. Caído por terra, tens o aspecto do alcoólatra inchado jogado em nossas sarjetas e calçadas. Semi-escondido pela cruz, assemelhas-te ao fétido miserável, a colher lixo e papel em sua carroça; como tua cruz, pesa mais que ele. Como um mendigo fedorento a suor, sujo de catarro e urina, faminto, tu olhas para mim, a pedir que te levante. És, assim, tu mesmo, o não-amável que sou chamado a amar.

Aclamação

V. Senhor Jesus, que te rebaixaste mais do que todos nós por amor a quem não te ama,

R. Tem piedade de nós, que fugimos da crueza da participação de tua paixão e cruz. Ensina-nos que isso é amor esponsal.

V. Cordeiro esmagado por nossos pecados,

R. Tem piedade de nós e ensina-nos a acolher-te quando estás sujo, fedorento, fraco e deformado. Ensina-nos que isso é amor esponsal.

V. Pai do céu,

R. Venha o teu Reinado!

Pai Nosso

OITAVA ESTAÇÃO

JESUS ENCONTRA AS MULHERES DE JERUSALÉM

V. Nós te adoramos, Filho do Homem, e te bendizemos,

R. Porque por tua cruz remiste o mundo.

Do Evangelho de São Lucas 23, 28-31

Jesus voltou-se e lhes disse: “Moradoras de Jerusalém, não choreis por mim; chorai por vós e por vossos filhos. Porque chegará um dia em que se dirá: Felizes as estéreis, os ventres que não pariram, os peitos que não amamentaram! Então começarão a dizer aos montes: ‘Caí sobre nós’; e às colinas: ‘Sepultai-nos’. Pois, se tratam assim a árvore viçosa, o que não farão com a seca?

Meditação

Ah, Senhor, Filho de Deus, Filho do Homem! Como não ultrapassar o olhar da exegese e ver, aqui, tua admoestação para a mulher, hoje! Não estamos nós vivendo um tempo no qual as estéreis são consideradas felizes? Não estamos vivendo um tempo em que as mulheres se fazem esterilizar para serem, secundo elas, mais felizes? Não seremos nós as mulheres cujos ventres negam-se a parir, matando seus filhos para viverem melhor? Não estão secando nossos peitos à força de hormônios para a amamentação não deforma-los, para voltarmos mais cedo ao trabalho? Jesus, tu, o Filho do Homem, Inocente, recebeste de nós o pior dos tratamentos em tua paixão. Hoje, porém, Senhor, nós mulheres, te matamos nos abortos cirúrgicos, nos abortos advindos do diu, das pílulas e demais métodos artificiais que não deixam desenvolver-se nenhuma vida que consiga escapar ao seu cerco. Criaste-nos para acolher e promover a vida, e eis-nos hospedando e provocando a morte! Chamaste-nos a humanizar o homem e eis-nos ultrajando seu direito mais básico! Criaste-nos para sermos presença disponível e eis-nos sendo ausência ocupada! Fizeste-nos ternura e eis-nos rispidez, competição, ódio aos nossos próprios filhos. Hoje, Jesus, não temos por quem chorar. Nem por nós – que julgamos o choro sinal de fraqueza- nem por nossos filhos – que não existem mais! Que fizemos, Senhor, que fizemos ao lenho verde!

Aclamações

V. Amado Filho do Homem, acolhido por Maria sem restrições,

R. Tem piedade de nós!

V. Jesus, criança assassinada, criança solitária, criança abandonada,

R. Tem piedade de nós!

V. Pai do céu,

R. Não nos deixes sucumbir à prova!

NONA ESTAÇÃO

JESUS CAI PELA TERCEIRA VEZ

V. Nós te adoramos, Filho de Deus feito Homem, e te bendizemos

R. Porque por tua santa cruz remiste o mundo

Do Livro das Lamentações 3,27-32

É bom para o homem carregar o jugo desde a sua mocidade. É bom ele sentar-se solitário e silencioso quando o Senhor lho impuser; por sua boca no pó, onde talvez encontre esperança; estender a face a quem o fere e suportar as afrontas. Porque o Senhor não repele para sempre. Após haver afligido, tem compaixão, porque é grande a sua misericórdia.

Meditação

Sei, Amado meu, que esta tua terceira queda é a minha última oportunidade de cair contigo e deixar-te cair comigo. Para ser tua alma esposa, é preciso que eu encontre o segredo da queda. É preciso que me una a ti e aprenda a partilhar contigo o pó e nele encontrar esperança. Ajuda-me, Senhor, a cairmos juntos. Ajuda-me a fazer-me pequeno contigo, pois meu alvo é a santidade e a santidade nunca foi para os grandes, para os que nunca caem e julgam tudo saber, tudo poder. Desejo, meu Jesus, cair contigo. Não terei medo de ser esquecido, de ser escarnecido, de ser rejeitado. Meu alvo, Amado meu, é a santidade, não o sucesso. Desejo, meu Senhor, permitir que caias comigo; permitir que me ajudes em minha solidão, em meu pó, no jugo que carrego desde a mocidade. Desejo, contigo, estender a face ao que me fere, pois meu alvo, como já disse é a santidade. Não só alvo, mas vocação, sem presunção nenhuma de grandeza. Nesta queda conjunta, meu Querido, tua e minha, está a nossa esperança. Não é exatamente lá, no pó, que ela se esconde? Não é na queda que ela se oculta? Não é lá que ela sussurra o Teu Amor por mim? Esta queda, como as outras, é a minha queda, a nossa queda, o nosso segredo para encontrar a pequenez, a confiança no Amor, a esperança escondida no pó que se mistura ao teu sangue.

Aclamações

V. Jesus, que escondeste no pó a virtude da esperança ,

R. Tem piedade de mim e livra-me de querer encontrar-te nas grandezas.

V. Cristo, que aceitas trilharmos juntos o caminho da queda,

R. Tem piedade de mim e ensina-me a suportar as afrontas dos que me são mais caros.

V. Pai do céu,

R. Perdoa nossas ofensas.

Pai Nosso

DÉCIMA ESTAÇÃO

JESUS É DESPOJADO DE SUAS VESTES

V. Nós te adoramos, Cristo, Novo Adão, e te bendizemos,

R. Porque por tua santa cruz remiste o mundo.

Do Evangelho de São Marcos 15,24

Os soldados repartiram entre si as suas vestes, sorteando-as para verem o que levava cada um.

Meditação

É inevitável, Senhor meu, ver-te, assim, despido, e não recordar que a santidade é a veste nupcial para as bodas do Cordeiro. É inevitável, também, ver de quantas vestes me visto. De quantas defesas, de quantas vontades, de quantas imagens, de quantas teimosias. Inevitável ver de quanta vaidade me adorno, em quanto orgulho me abrigo, em quanta altivez me defendo. Inevitável colocar-me, tão altivo, tão protegido, tão cheio de mim mesmo, diante de ti, despido, ferido, ensangüentado e sujo. Inevitável reconhecer o óbvio de qual das duas vestes é a da santidade. Impossível não distinguir qual dos dois está preparado para as núpcias! Quando, Senhor, te terei como meu único Amor, quando só tu me bastarás, de fato, para que eu não só permita, mas deseje despojar-me de minhas vestes tão baixas, deixando, feliz, que as disputem quem nelas se interesse e que tirem a sorte como queiram, uma vez que minha fortuna é estar despido, pronto para as nossas Bodas.

Aclamações

V. Jesus, Novo Adão, vestido de nudez,

R. Tem piedade de mim e dá-me a coragem do amor.

V. Jesus, Noivo e Cordeiro,

R. Tem piedade de mim e veste-me de tua nudez.

V. Pai do céu,

R. Venha o teu Reinado.

DÉCIMA PRIMEIRA ESTAÇÃO

JESUS É PREGADO NA CRUZ

20040216-paixao_cristo-05

Meditação

Vejo-te, Jesus, imóvel por alguns instantes, tomado da imobilidade do amor. Sei que logo arquejarás, que em breve entrarás em tetania, em agonia, e consumarás teu sacrifício de amor. No entanto, guardo como a um tesouro, este instante quando tu, pregado, te entregas imóvel nas mãos do Pai e do Espírito, nas mãos dos homens. Não estás pregado em um madeiro. Não! Pendes do amor absoluto e não encontras outra causa para amar a não ser o próprio Amor! Talvez por isso, pendas, imóvel, do ápice da Caridade. Aos teus pés, exponho a ti minha fraqueza, desejando amar-te cada vez mais perdidamente, como se tu precisasses de justificativas para amar até a consumação de ti mesmo.

Aclamações

V. Jesus, Cordeiro Imóvel, vítima do Amor, pendente do Amor Absoluto,

R. Tem piedade de mim e ensina-me que não há santidade sem cruz.

V. Jesus, Pobre e Nu, vítima da Dor,

R. Tem piedade de mim e ensina-me que os pobres são a salvação e a esperança da humanidade.

V. Pai do céu,

R. Seja respeitada a santidade do Teu Nome!

DÉCIMA SEGUNDA ESTAÇÃO

JESUS MORRE NA CRUZ

Cristo

Meditação

Cristo, Ungido do Pai, Sacerdote, Vítima, Altar, Esposo! Desejo dar-te o que me dás. E posso dar-te mais que me dás, pois, dando-te a mim, comigo dou-te a ti, que és unido a mim. Nunca irei sozinho ao Pai. Acolho a tua morte e vivo. Acolhes minha vida e morres. Vida e morte, em tua cruz, são uma só coisa. Sacerdote e vítima, são uma só coisa. Entrega e acolhida, uma coisa só. Tudo é amor. Tu morres por todos. Eu morro por ti e sei que isso significa morrer por meu irmão. O amor é assim: não permite que se morra por si mesmo. Tornamo-nos, assim, sacerdotes e vítimas no Único Sacerdote, Única Vítima e, por isso, Único Esposo que, unido às famílias e aos virgens, une-se agora aos sacerdotes em uma única Oferta, um único Altar, únicos Esponsais com toda a família humana. “Pai, perdoai-lhes”, ouço-te dizer. “Eu te absolvo dos teus pecados”, ouço-o dizer. “Fazei isso em memória de mim!”, ouço-te. “Eis o Cordeiro de Deus”, ouço-o. É uma só esta voz sacerdotal, esta voz esponsal que oferta a vida!

Aclamações

V. Jesus, Sacerdote, Vítima, Altar, Esposo,

R. Tem piedade de mim, ensina-me que só o amor da cruz é o teu, e que só ele permanece

V. Jesus, Esposo Imolado,

R. Abre os olhos de minha oração; que eu te veja, que eu veja!

V. Pai do céu,

R. Santificado seja o teu nome!

Pai Nosso

DÉCIMA TERCEIRA ESTAÇÃO

JESUS É DESCIDO DA CRUZ

Meditação

Vejo-te, Senhor, sendo lavado, às pressas e, cuidadosamente, lentamente, atentamente, sem nenhuma pressa, desejo lavar-te ao lavar meu irmão. Sinto o cheiro do lençol que te envolve: cheiro de linho cru. Carinhosamente, atento a todo detalhe, uso todo o tempo do mundo para tecer o lençol que envolve meu irmão, suas ofensas, seus queixumes. Inalo o perfume do óleo apressado e guardo-o na memória, cuidadoso. Dele disponho para ungir meu irmão ferido, ofendido, faminto, doente, moribundo. Pois é amando assim, concretamente, ao meu irmão, que te estarei amando da forma mais perfeita. É assim que serei tua alma esposa, no amor efetivo ao meu irmão. Assim, estarei fazendo a tua vontade: “Que vos ameis como vos amo”. Assim, Esposo meu, te envolverei a cada dia, um corpo inerte, sobre o qual não se tem esperança, sobre o qual se meneia a cabeça. Em teu e meu coração, porém, sabemos, que não há caso perdido, não há maldade humana, não há corpo inerte que, por causa do Amor, não vá encontrar a ressurreição.

Aclamações

V. Jesus, inerte nos braços dos homens,

R. Tem piedade de nós e ensina-nos a amar nosso irmão.

V. Cristo, Corpo Santo preparado às pressas,

R. Ensina-nos a perfeição do amor: amar o outro como tu nos amas.

V. Pai do céu,

R. Também na terra, seja feita a tua vontade.

DÉCIMA QUARTA ESTAÇÃO

JESUS É DEPOSITADO NO SEPULCRO

Meditação

Vejo-te, Senhor, pelos olhos da Madalena. Observo como te colocam. Vejo como te ungiram. Como não lembrar-me das outras unções? Fico atenta a como rolaram a grande pedra, ao ângulo do qual a empurraram. Nada me escapa. Não te deixarei só. Estarei contigo nas ruas, no trabalho, nas escolas, nos motéis, nos estádios, nos bares, nas praias, nos shoppings. Estarei contigo onde a comida é farta e onde bóia o minguado punhado de feijão na panela de ferro. Estarei contigo onde o conhecimento ilumina e onde a ignorância cega. Estarei contigo onde a vida se inicia e onde finda. Estarei contigo nos gritos de alegria e nos gemidos de agonia. Estarei contigo, Amado meu, a velar-te no homem, em cada homem, ao longo das nossas pobres noites. Até que venha a tua Ressurreição. Até que a veja brilhar nos olhos deles, de cada um, e possa, eu mesmo, dormir em paz, apoiado em teu braço, envolvido no estandarte da Caridade, sob as flores de maçã da tua eternidade, Esposo meu.

V. Amado meu, Esposo meu, enquanto aguardamos a Tua ressurreição,

R. Tem piedade de mim e ensina-me a perfeição do único Amor.

V. Jesus, Amado meu, Esposo meu, enquanto aguardamos a Tua vinda,

R. Tem piedade de mim e ensina-me que amar é servir.

V. Pai do céu,

R. Daí-nos hoje o pão deste dia.

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Um comentário sobre “Via sacra do Amor Esponsal

  1. O Sofrimento de Jesus Cristo nos trouxe muito mais daquilo que podemos imaginar,sempre teremos a certeza que com o seu sofrimento temos a reconciliação com Deus Pai em todos os momentos de nossa vida , sejam qual for o acontecimento ou fato que nos submetemos nesse mundo. O que me impressiona em Jesus é que no ápice de seu sofrimento Ele conseguia ver que o motivo pelo qual Ele sofria e o que O consolava ,isto é, esse motivo nada mais é do que Eu e Você.

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